Abordagens nutricionais para emagrecimento – parte 2

   Como vai caro leitor?
   Depois da parte 1 que descrevia as abordagens nutricionais para emagrecimento mais comuns, vamos à parte 2. Esta destina-se a comparar as abordagens, bem como a sua eficácia a longo prazo.

   
A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera a obesidade como um dos maiores e mais sérios desafios da saúde pública no século XXI, em todo o mundo: 
  • Em 2010 estimou-se que a taxa de obesidade no mundo fosse de 150 milhões de adultos e 15 milhões de crianças;
  • A obesidade infantil actual é 10 vezes superior à verificada em 1970.
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Pois bem, para combater este flagelo têm-se desenvolvido várias estratégias e têm-se envolvido diferentes áreas do conhecimento:
  • Medicina;
  • Cirurgia;
  • Nutrição e dietética;
  • Desporto;
  • Psicologia;
  • Medicinas alternativas;

  Deste modo, são várias as possibilidades de conjugação de estratégias de tratamento para o excesso de peso e obesidade. Um artigo da conceituada revista científica Nature fez a comparação das perdas de peso conseguidas com diversas conjugações a médio/ longo prazo:

  • Dieta hipolipídica (restrição de gorduras alimentares): diminuição de 3 a 4 kg aos 3 anos;
  • Dieta hipocalórica (restrição de todos os nutrientes): diminuição de 6 a 7 kg aos 4 anos;
  • Dieta hipoglicídica (restrição de açúcares e farináceos): diminuição de 9 a 12 kg aos 2 anos;
  • Substitutos alimentares (barras, batidos, mousses): diminuição de 8kg aos 4 anos;
  • Dieta conjugada com terapia cognitiva: diminuição adicional  de 5kg, para além do conseguido com apenas dieta alimentar;
  • Dieta conjugada com exercício: diminuição adicional de 1kg a 1,5 kg para além do conseguido com apenas dieta alimentar;
  • Dieta conjugada com fármacos: diminuição adicional de 3kg a 5kg para além do conseguido com apenas dieta alimentar;
  • Banda gástrica: Redução aproximada de 14% do peso inicial aos 10 anos;
  • Bypass ou gastroplastia: Redução aproximada de 25% do peso inicial aos 10 anos.

 

  Confuso? Pode-se verificar que o tempo (anos) de seguimento é variável, dificultando a comparação exata entre “dietas” per si. Contudo, é pertinente afirmar que a conjugação de outras estratégias, por exemplo o acompanhamento psicológico, constitui uma mais valia quando conjugadas com a terapia nutricional. Quanto aos fármacos, estes são prescritos apenas por médicos, não estando abrangidos o uso de suplementos alimentares (“produtos naturais”). Já a cirurgia será sempre um recurso de última linha.

 
 

Comparação entre abordagens nutricionais

   A comparação entre abordagens nutricionais deve ser feita não só para a perda de peso conseguida a médio e longo prazo, mas também para os benefícios de saúde que estas acarretam.
 
   Começando pelos benefícios em saúde: muito se tem discutido qual a abordagem que tem mais benefícios em termos de diminuição do risco cardiovascular. Isto é, diminuição de parâmetros como o colesterol, os triglicéridos e a glicémia. 
   Um estudo de 2006 conclui que a “abordagem moderna” (hipoglicídica, hiperproteica) parece ser, pelo menos, tão eficaz como a convencional (hipolipídica, hipocalórica)
em programas de perda de peso de 1 ano. Contudo, com a abordagem moderna, verificaram-se potenciais alterações favoráveis nos valores de triglicéridos e colesterol HDL (bom), em desfavor dos valores de colesterol LDL (mau) . Então, deve-se ponderar a utilização desta abordagem em indivíduos com LDL-c elevado.
 
    Assim sendo, se as abordagens são igualmente eficazes nos benefícios de saúde ao fim de 1 ano, qual a mais eficaz para emagrecimento?
   A médio prazo essa resposta já foi dada nos resultados da revista Nature, divulgados no tópico acima. Veja ainda, este gráfico que descreve as perdas de peso, ao longo do tempo (meses), comparando várias estratégias de perda de peso:

 

   Podemos verificar que todas as intervenções registam uma perda de peso máxima aos 6 meses com posterior manutenção ou recuperação do peso. De facto, “o problema” não está em conseguir perdas de peso iniciais, está sim, na manutenção a longo prazo.
  Algumas notas adicionais:
  Já reparou na linha azul clara que representa uma dieta com restrição energética severa? trata-se por exemplo da dieta “da sopa”, “da fruta”, “da seiva”, entre outras. Ou seja, se “deixarmos de comer” é normal haver perdas de peso elevadas e rápidas. Porém, sabemos que a recuperação desse peso está garantida, como mostra a linha azul clara. Opte por soluções mais moderadas como a linha verde (dieta+exercício).
 

Estratégias para o futuro

   Deste modo, não está em causa a estratégia mais eficaz, pois todas elas parecem eficazes até aos 6 meses. Cada um de nós deve decidir em conjunto com o seu médico ou dietista qual a abordagem terapêutica que melhor se adequa aos nossos gostos e estilo de vida a curto prazo. É certo que a terapia nutricional por si é eficaz, mas se
lhe adicionar fatores extra, como exercício ou terapia psicológica, estes resultados tornam-se mais expressivos. Por isso é que não existe “uma dieta milagre” ou “um plano alimentar geral”. A estratégia de intervenção é individualizada e atualizada ao longo do tempo. 

   O maior problema que se apresenta no tratamento da obesidade é a adesão a longo prazo. Isto é, todos nós podemos perder peso e até atingir o nosso peso ideal, cada um com a sua estratégia e abordagem nutricional. Contudo, o mais difícil é a manutenção dos hábitos alimentares e de exercício a longo prazo. Só mudando o seu estilo de vida é que será bem sucedido para sempre. Por isso, se está a pensar ir a uma consulta de nutrição deve encarar o que lá lhe vai ser ensinado e transmitido, como ensinamentos para a vida, e não apenas durante 6 meses para perder X peso. O sucesso está aí.

“Não há dietas milagrosas. Mude os seus hábitos alimentares e estilo de vida definitivamente. O segredo é apenas esse.”