Emagrecer é uma coisa. Manter é outra. Abordagens nutricionais para emagrecimento, Parte 2

Dra. Catarina Cachão Bragadeste
Nutricionista, cédula 0402N

Progressão de peso: figura em três fases — início, atual e objetivo — mostrando redução de massa gorda e ganho

Na primeira parte deste artigo vimos que várias estratégias alimentares podem conduzir à perda de peso.

Low-carb, low-fat, dieta mediterrânica, jejum intermitente ou outras formas de restrição energética podem funcionar em determinadas pessoas.

Mas isso leva-nos à questão mais difícil:

O que acontece depois de perder peso?

Porque, na prática clínica, perder alguns quilogramas durante algumas semanas ou meses é apenas uma parte do problema.

Manter a redução da adiposidade, proteger massa muscular, preservar saúde metabólica e conseguir continuar a viver normalmente com a estratégia é muito mais complexo.

E é aqui que a ciência da obesidade mudou profundamente.

A obesidade não é simplesmente “comer demasiado”

A Organização Mundial da Saúde classifica atualmente a obesidade como uma doença crónica e recidivante, resultante da interação entre genética, neurobiologia, comportamento alimentar, ambiente, acesso a alimentos, fatores sociais e sistemas alimentares. Em 2022, cerca de 1 em cada 8 pessoas no mundo vivia com obesidade; 43% dos adultos tinham excesso de peso e 16% obesidade segundo dados da Organização Mundial da Saúde.Mulher em roupa de dormir pesando-se numa balança de banheiro, com expressão preocupada, num contexto

Isto significa que reduzir a obesidade a:

“coma menos e mexa-se mais”

é insuficiente.

O balanço energético continua a existir, ninguém contorna as leis da termodinâmica, mas o comportamento que determina esse balanço energético é biologicamente e socialmente regulado.

Fome, saciedade, recompensa alimentar, sono, stress, medicamentos, atividade física, ambiente alimentar e experiências anteriores de perda de peso interferem com aquilo que uma pessoa consegue comer e manter ao longo do tempo.

Por isso, a obesidade deve ser abordada como qualquer outra condição crónica:

com avaliação, tratamento individualizado, acompanhamento e possibilidade de intensificar ou alterar a terapêutica quando necessário.

Porque é tão difícil manter o peso perdido?

Depois de uma perda ponderal, o organismo não se comporta como se nada tivesse acontecido.

Podem ocorrer adaptações que favorecem a recuperação do peso:

  • redução do gasto energético;
  • aumento da fome;
  • alterações nos sinais de saciedade;
  • maior atenção e recompensa associadas a alimentos;
  • redução espontânea do movimento em algumas pessoas;
  • maior dificuldade em manter restrições alimentares prolongadas.

A isto juntam-se fatores completamente humanos:

trabalho, férias, maternidade, doença, stress, alterações hormonais, falta de sono, acontecimentos familiares, mudança de rotinas.

Portanto, recuperar peso não significa necessariamente que alguém “falhou”.

Significa muitas vezes que a intervenção deixou de conseguir compensar uma combinação de fatores biológicos, comportamentais e ambientais.

No Framework DdD, recaída e reganho são informação para adaptar a intervenção, não um julgamento moral sobre a pessoa. O objetivo é trabalhar com hábitos sustentáveis, comportamento e estilo de vida, e não apenas impor uma dieta temporária.

Todas as dietas acabam por falhar?

Não.

Mas também não é correto dizer que qualquer dieta “funciona” simplesmente porque produz perda de peso inicial.

Uma revisão contemporânea do tratamento comportamental da obesidade mostra que intervenções intensivas que combinam alimentação, atividade física e modificação comportamental conseguem produzir reduções clinicamente relevantes do peso. Porém, a manutenção continua a exigir estratégias específicas e acompanhamento continuado. Nature

Isto ajuda a explicar um fenómeno conhecido há décadas:

quanto mais prolongamos o acompanhamento, maior tende a ser a variabilidade dos resultados.

A pergunta clínica, portanto, não deve ser apenas:

“Quanto emagrece esta dieta em 12 semanas?”

Deve ser também:

“O que acontece ao fim de 1, 2 ou 5 anos?”

E então qual é a estratégia nutricional mais eficaz a longo prazo?

Não existe uma vencedora universal.

Uma grande meta-análise de 2025, publicada no BMJ, analisou 99 ensaios clínicos randomizados e 6582 adultos, comparando diferentes modalidades de jejum intermitente com restrição energética contínua.

Globalmente, as várias formas de restrição energética reduziram o peso relativamente a uma alimentação sem restrição estruturada.

Mas, quando comparadas entre si, as diferenças foram pequenas.

O jejum em dias alternados apresentou uma vantagem média modesta relativamente à restrição energética contínua, cerca de 1,3 kg. Além disso, nos ensaios com duração igual ou superior a 24 semanas, não se observou vantagem do jejum intermitente sobre a restrição energética contínua. BMJ

Isto reforça aquilo que discutimos na Parte 1:

a estrutura da dieta pode ajudar, mas não substitui a capacidade de a manter.

A adesão importa, mas não devemos transformar tudo num problema de “força de vontade”

 A adesão é um dos grandes desafios, mas não é exclusivamente responsabilidade do paciente.

Uma estratégia demasiado restritiva, monótona, socialmente incompatível ou permanentemente dependente de controlo consciente pode simplesmente ser uma estratégia mal desenhada para aquela pessoa.

Por isso, em consulta, interessa perceber:

  • que alimentos a pessoa gosta realmente;
  • horários e rotina profissional;
  • refeições familiares;
  • fome e saciedade;
  • episódios de comer emocional;
  • sono;
  • stress;
  • atividade física;
  • sintomas;
  • medicação;
  • orçamento;
  • capacidade de cozinhar;
  • contexto social;
  • fase da vida.

A melhor intervenção não é necessariamente aquela que produz a maior perda nas primeiras oito semanas.

É aquela em que existe uma relação razoável entre:

eficácia + segurança + adequação nutricional + carga mental + sustentabilidade.

Este princípio faz parte da própria matriz terapêutica DdD: benefício esperado deve ser ponderado face ao risco, custo, restrição, tempo e impacto psicológico.

O exercício ajuda a manter o peso?

Sim, embora não deva ser reduzido ao número de calorias gastas.

O verdadeiro valor do exercício pode estar menos nos quilogramas adicionais perdidos e mais naquilo que preserva e melhora:

  • massa muscular;
  • força;
  • aptidão cardiorrespiratória;
  • sensibilidade à insulina;
  • pressão arterial;
  • saúde óssea;
  • capacidade funcional;
  • autonomia;
  • manutenção ponderal.

No emagrecimento, isto é particularmente importante porque uma restrição energética mal planeada pode conduzir também a perda de massa magra.

Por isso, o Framework DdD considera a combinação de movimento diário, atividade aeróbia e treino de força uma terapêutica metabólica integrada, e não simplesmente uma forma de “queimar calorias”.

E a psicologia?

Tratamento comportamental da obesidade pode integrar:

  • definição de objetivos;
  • autorregulação;
  • automonitorização quando útil;
  • resolução de problemas;
  • identificação de gatilhos;
  • estratégias de prevenção de recaída;
  • relação com a comida;
  • intervenção psicológica quando existe indicação.

E nem todas as dificuldades relacionadas com alimentação devem ser tratadas pelo nutricionista.

Ansiedade, depressão, perturbações do comportamento alimentar, compulsão alimentar ou sofrimento psicológico clinicamente significativo podem exigir articulação com Psicologia ou Psiquiatria.

Isso não representa falha do acompanhamento nutricional.

Representa tratamento interdisciplinar adequado.

Hoje existe ainda outra peça importante: os medicamentos para a obesidade

 Durante muitos anos, a farmacoterapia tinha uma eficácia relativamente limitada.

Isso mudou.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada na Nature Medicine em 2025 avaliou 56 ensaios clínicos e 60 307 participantes.

Todos os medicamentos avaliados produziram maior perda de peso do que placebo, mas existiram diferenças importantes de magnitude. Semaglutido e tirzepatida produziram perdas médias superiores a 10% do peso corporal relativamente ao placebo nos estudos analisados. Nature

Mais importante, alguns destes tratamentos demonstraram benefícios que ultrapassam a balança.

Na revisão:

  • semaglutido associou-se a redução de eventos cardiovasculares adversos major em populações estudadas;
  • tirzepatida demonstrou benefício na remissão da apneia obstrutiva do sono e da esteato-hepatite associada a disfunção metabólica em populações estudadas;
  • ambas mostraram efeitos relevantes na glicemia e diabetes tipo 2. Nature

Isto não significa que todas as pessoas com excesso de peso devam tomar medicação.

Significa que já não é cientificamente correto apresentar:

alimentação e exercício de um lado
versus
medicação do outro.

Podem ser componentes complementares do mesmo tratamento.

O Framework DdD assume precisamente esta posição:

a Medicina do Estilo de Vida não deve ser apresentada como alternativa ideológica à farmacoterapia.

eventos cardiovasculares adversos major

Mas se parar o medicamento, o peso pode voltar?

Pode.

E isso ajuda precisamente a perceber a natureza crónica da obesidade.

Se uma terapêutica controla fome, saciedade e ingestão enquanto é utilizada, retirar essa terapêutica pode permitir que parte das forças biológicas que favoreciam o ganho ponderal volte a manifestar-se.

O mesmo raciocínio aplica-se a outras doenças crónicas.

Não dizemos que um anti-hipertensor “falhou” porque a pressão arterial volta a subir quando é suspenso.

Em obesidade, a duração do tratamento deve ser individualizada e discutida entre pessoa e médico, considerando eficácia, efeitos adversos, risco clínico, preferências e custo.

A nutrição continua a ser fundamental durante a farmacoterapia, nomeadamente para garantir:

adequação proteica, micronutrientes, fibra, hidratação, tolerância gastrointestinal e preservação de massa muscular.

E a cirurgia metabólica?

A cirurgia bariátrica/metabólica não deve ser entendida simplesmente como o último degrau depois de “tudo o resto ter falhado”.

É uma modalidade terapêutica estabelecida para pessoas criteriosamente selecionadas, particularmente quando a obesidade e as suas complicações justificam uma intervenção mais eficaz.

Também não é uma solução isolada.

Implica avaliação médica, nutricional e psicológica adequada, preparação, monitorização nutricional prolongada e acompanhamento.

A escolha entre intervenção comportamental, farmacoterapia e cirurgia deve basear-se em risco, benefício esperado, gravidade da doença, preferências, contraindicações e resposta aos tratamentos anteriores.

Não numa escala moral em que cirurgia significa “falhanço”.

E as dietas muito restritivas?

É verdade que uma restrição energética muito acenttuada pode produzir perdas rápidas de peso.

Mas não podemos concluir simplesmente que:

“a recuperação desse peso está garantida”.

Não está.

Dietas de muito baixo valor energético podem ter utilização clínica específica em contextos selecionados, sob supervisão adequada.

O problema são abordagens extremas, nutricionalmente inadequadas, feitas sem indicação, sem acompanhamento e sem plano de transição ou manutenção.

Portanto, não é a rapidez da perda isoladamente que define se uma intervenção é boa ou má.

Devemos avaliar:

indicação + qualidade nutricional + massa muscular + segurança + acompanhamento + estratégia de manutenção.

Não basta perguntar quantos quilogramas foram perdidos

Imagine duas pessoas.

Ambas perderam 8 kg.

A primeira:

  • perdeu sobretudo gordura;
  • preservou massa muscular;
  • melhorou glicemia;
  • reduziu perímetro abdominal;
  • aumentou força;
  • dorme melhor;
  • consegue manter a alimentação.

A segunda:

  • perdeu uma quantidade importante de massa magra;
  • vive permanentemente com fome;
  • evita refeições sociais;
  • deixou de treinar;
  • recupera peso sempre que termina a dieta.

O número da balança pode ser idêntico.

O resultado clínico não é.

É por isso que atualmente avaliamos emagrecimento dentro de um quadro mais amplo de:

composição corporal + risco metabólico + função + comportamento + qualidade de vida.

No Framework DdD, isto é explícito: sintomas, função, qualidade de vida, risco clínico e adesão pesam mais do que números isolados.

E na mulher depois dos 40?

Também importa evitar atribuir todos os problemas à menopausa.

O envelhecimento pode favorecer menor atividade e perda progressiva de massa magra.

A transição menopáusica acrescenta alterações hormonais que podem favorecer redistribuição da gordura para o compartimento abdominal e alterações da composição corporal.

Mas o resultado final depende da interação entre:

músculo, atividade física, alimentação, sono, stress, genética, medicação e contexto.

O peso pode inclusivamente manter-se relativamente estável enquanto aumenta gordura abdominal e diminui massa magra.

Por isso, nesta fase, acompanhar apenas o peso é particularmente redutor.

Então como devemos pensar no tratamento em 2026?

Em vez da antiga pergunta:

“Qual é a dieta mais eficaz?”

eu colocaria cinco perguntas.

  • Existe excesso de adiposidade que justifique tratamento?
  • Que grau de perda poderá melhorar de forma clinicamente relevante a saúde desta pessoa?
  • Como preservar músculo e função durante o processo?
  • Que intervenção consegue efetivamente manter?
  • É suficiente uma intervenção nutricional e comportamental ou existe indicação para tratamento médico adicional?

Esta mudança parece subtil.

Na realidade, altera completamente a forma como tratamos obesidade.

O objetivo não é estar eternamente “de dieta”

Uma intervenção nutricional pode começar com maior estrutura:

porções, horários, objetivos, plano alimentar ou monitorização.

À medida que a pessoa adquire competências, idealmente deve existir progressivamente menos dependência do plano e maior capacidade para:

  • gerir refeições diferentes;
  • comer fora;
  • viajar;
  • adaptar quantidades;
  • reconhecer fome e saciedade;
  • atravessar períodos menos perfeitos;
  • regressar à rotina sem culpa.

Porque manutenção não significa fazer exatamente a mesma dieta para sempre.

Significa ter um sistema suficientemente flexível para sobreviver às mudanças da vida.

O método DdD termina precisamente aí: manter aquilo que funciona, retirar o que deixou de acrescentar valor, liberalizar restrições e preparar autonomia.

Em Conclusão

Produzir perda de peso a curto prazo é frequentemente mais fácil do que manter essa perda ao longo dos anos.

Tratar obesidade é muito mais do que isso.

Significa reduzir a adiposidade quando existe indicação clínica, preservar músculo e função, melhorar saúde metabólica e construir uma estratégia que possa ser mantida.

Para algumas pessoas, alimentação, exercício e intervenção comportamental serão suficientes.

Para outras, a melhor abordagem poderá incluir também farmacoterapia.

Para outras ainda, cirurgia metabólica.

Nenhuma destas possibilidades representa, por si só, sucesso ou falhanço.

O melhor tratamento é aquele que apresenta benefício clínico relevante, segurança e sustentabilidade para aquela pessoa.

E talvez a conclusão mais importante destes dois artigos seja esta:

Não procure a dieta que consegue fazer durante três meses. Procure a estratégia de saúde que consegue adaptar ao longo da vida.

Dra. Catarina Cachão Bragadeste
Nutricionista Clínica · CP 0402N

Referências científicas selecionadas

  • World Health Organization. Obesity and overweight. Atualização de dezembro de 2025. Organização Mundial da Saúde
  • Chao AM, Moore M, Wadden TA. The past, present, and future of behavioral obesity treatment. International Journal of Obesity. 2025;49:196–205. Nature
  • Semnani-Azad Z, et al. Intermittent fasting strategies and their effects on body weight and other cardiometabolic risk factors: systematic review and network meta-analysis of randomised clinical trials. BMJ. 2025;389:e082007. BMJ
  • McGowan B, et al. A systematic review and meta-analysis of the efficacy and safety of pharmacological treatments for obesity in adults. Nature Medicine. 2025;31:3317–3329. Nature

     

Achou útil? Partilhe.

Quer um plano feito para si?

Um artigo dá informação; uma consulta dá um plano e acompanhamento. A primeira consulta é 80 €, sem fidelização.