Higiene e Segurança Alimentar na Gravidez

Setembro

Estamos a terminar o mês da Natalidade.

Mas não o poderíamos fazer sem chamar a atenção para este assunto tão desconhecido e, ao mesmo tempo, temido na gravidez.

Eu própria enquanto gestante achei que não fui suficientemente elucidada pela minha médica. Se não fosse nutricionista, não saberia dos riscos acrescidos que uma toxinfeção alimentar acarreta para o bebé.

A toxoplasmose é a mais conhecida, surgindo a questão: “Posso comer salada fora de casa?”. Além da comum: “posso comer sushi?” e caso o “desejo” seja grande, algumas grávidas acabam por arriscar! Mas será que vale a pena?

Sentimos o dever de fazer esta publicação, para que não sobrem dúvidas e para que todas as grávidas dêem o devido valor à Higiene e Segurança Alimentar.

Imunotolerância: um risco necessário

A gravidez é uma fase particularmente suscetível a infeções por microorganismos (vírus, bactérias, parasitas), porque o sistema imunitário se torna “mais brando” para aceitar que células com um novo material genético cresçam dentro de si! Caso contrário, seriam rejeitadas. É o conceito de imunotolerância.

Imunotolerância na gestação

Durante a gestação, o corpo feminino sofre diversas alterações endócrinas, físicas, psicológicas e imunológicas. O sistema imune materno está em íntimo contato com o feto, que pode ser comparado a um alloenxerto, pois possui 50% de material genético paterno. Em 1953, o cientista e prémio Nobel Peter Medawar foi o primeiro a formular o conceito de que o embrião representa um transplante para o sistema imune materno estando, portanto, vulnerável à rejeição ou tolerância imunológica. Atualmente sabe-se que a interação imunológica que ocorre ao longo da gestação é, inclusive, mantida até o período de amamentação!

Principais microorganismos

A Salmonella é uma enterobactéria  que contamina uma diversidade de alimentos, especialmente os ricos em proteínas: carne e peixe, laticínios e ovos.

Estes alimentos, quando insuficientemente cozinhados, permitem a sobrevivência da bactéria. Os alimentos portadores da bactéria, ao entrarem em contacto físico (directo ou indirecto) com outros alimentos, podem contaminá-los, tornando-os num novo veículo de infecção, caso não sejam sujeitos a qualquer tratamento térmico antes de serem consumidos. Outros alimentos que têm sido implicados em surtos e casos de salmonelose incluem enchidos fermentados, sumos de fruta, peixe, chocolate, molhos, bolos com recheio, manteiga de amendoim e rebentos de alfafa. 

A salmonelose é considerada uma infecção zoonótica, uma vez que é uma doença de animais que pode ser transmitida a humanos. Os animais para consumo são infectados através do contacto com outros animais infectados, por exemplo aves e roedores, ou através do consumo de rações ou de água contaminados.

As salmonelas conseguem crescer em ambientes com temperaturas entre 7 e 48°C e têm uma temperatura óptima de crescimento (temperatura à qual a taxa específica de crescimento é máxima) entre 35 e 37°C. Não se multiplicam à temperatura de refrigeração mas são extremamente resistentes à congelação!

A  principal forma de destrui-las passa pela correta cocção dos alimentos a temperatura mínima de pasteurização (>75ºC). Contudo, teores elevados de gordura e baixas aW reduzem a eficácia dos tratamentos térmicos. Pelo que se deve garantir sempre uma elevaçãod a temperatura a mais de 100º mesmo no interior no alimento!

A infeção por L. monocytogenes pode ser assintomática para as grávidas ou dar sintomas ligeiros (como dor nas costas, dor de cabeça, diarreia, febre) mas ter graves consequências para o feto (aborto espontâneo, meningite, parto prematuro).

Ao contrário de outras bactérias presentes na água e alimentos, a L. monocytogenes suporta temperaturas de refrigeração (entre os 4 e os 10ºC) normalmente utilizadas nos nossos frigoríficos. O seu crescimento ótimo regista-se, contudo, em temperaturas mais quentes, entre os 30 e os 35ºC.

Cadeia de transmissão da Listeria em natureza

Pode estar presente em:

  • Queijos feitos com leite não-pausterizado (feta, brie, camembert, queijo azul)
  • Leite não-pausteurizado
  • Salsichas
  • Peixes refrigerados fumados
  • Fruta e vegetais crus e não-lavados
  • Alimentos perecíveis com consumo superior a 2 dias

As estratégias de higiene e segurança alimentar são a base da prevenção desta infeção. Eis algumas das que deve adotar:

  1. Evite a ingestão de alimentos de origem animal crus, tais como leite não pasteurizado e derivados.
  2. Lave bem a fruta e vegetais que vai comer crus, mesmo que lhes vá retirar a casca.
  3. Cozinhe bem os seus alimentos.
  4. Guarde no frigorífico as sobras de refeições até duas horas após a confeção e consuma-as dentro de 3-4 dias.
  5. Evite a contaminação cruzada entre os alimentos da sua cozinha, como, por exemplo, os crus e os cozinhados.
  6. Use tábuas de corte diferentes para legumes crus e carne, peixe ou ovos crus.
  7. Mantenha a temperatura de refrigeração do seu frigorífico a 4ºC ou menos.
  8. Proteja os alimentos do contacto com animais.
  9. Faça uma boa higiene das mãos depois de mexer em alimentos crus, lavando-as durante 20 segundos com sabão e água corrente.
  10. Mantenha bem higienizado tudo aquilo que entra em contacto com alimentos, como superfícies, equipamentos e utensílios.

Esta é uma doença parasitária causada por um parasita denominado Toxoplasma gondii e que tem elevada prevalência mundial. Esta infeção não tem grandes consequências para a população geral, sendo que esta apresenta apenas sintomas parecidos a um quadro gripal, no entanto na gravidez, esta pode ter consequências fatais. Esta pode ser transmitida através de:

  • Do consumo de alimentos ou água contaminados (principalmente vegetais crus e não-lavados, carne mal-cozinhada;
  • Contacto com fezes de gato;
  • Transmissão materno-fetal (se a mãe estiver infetada, poderá transmitir ao seu bebé, o que poderá ter consequências nefastas).

As consequências para o bebé dão-se principalmente se a mãe for infetada no primeiro trimestre de gravidez e podem incluir: inflamação ocular, malformações cerebrais, défice de visão, surdez, parto prematuro ou até mesmo morte fetal.

E como podemos prevenir a toxoplasmose?

  • Evitar o consumo de carne crua ou mal-cozinhada;
  • Lavar os vegetais a consumir com um produto apropriado para a lavagem de alimentos e não consumir saladas/legumes já prontos e embalados;
  • Higienizar as mãos depois de qualquer contacto com terra, areia;
  • Não beber água não tratada nem leite não-pasteurizado;
  • Se puder, que seja outra pessoa a tratar da recolha das fezes do seu gato.

O que fazer no global para prevenir uma toxiinfeção alimentar na gestação?

Limitar o consumo destes alimentos:

  • Laticínios não pasteurizados
  • Queijo fresco e requeijão
  • Enchidos e fumados
  • Carne e peixe mal cozinhados (ex. sushi)
  • Legumes e fruta mal lavados
  • Marisco
  • Patês de qualquer tipo
  • Lavar as mãos com água morna e sabonete:
    • Antes e depois de manusear alimentos
    • Depois de utilizar a casa de banho
    • Depois de estar em contacto com animais
  • Lavar muito bem os legumes com água corrente;
  • Lavar todos os frutos, mesmo se pretender descascá-los;
  • Separar os alimentos crus dos alimentos prontos a consumir;
  • No frigorífico, conservar a carne e o peixe crus sempre bem embalados e na zona intermédia, e os produtos em fase de descongelação na prateleira inferior, acondicionados em recipientes que evitem o derrame de líquidos resultantes do processo de descongelação;
  • Os alimentos cozinhados nunca devem ser colocados em recipientes onde estiveram alimentos crus, sem que o recipiente seja bem lavado;
  • Quando os alimentos são reaquecidos, devem ser levados à fervura, ou então reaquecidos a altas temperaturas por algum tempo;
  • Aquecer completamente as refeições prontas-a-comer e as “sobras” antes de servir;
  • Cozinhar completamente a carne; certificar se a carne congelada está corretamente descongelada antes de cozinhar;
  • Se usar o micro-ondas, seguir as instruções do fabricante e certificar-se de que o alimento está bem cozido no interior;
  • Verificar sempre o prazo de validade na embalagem dos alimentos;
  • Usar luvas quando fizer jardinagem e lavar as mãos após esta prática;
  • Usar luvas ao manipular os excrementos de gato (potencial transmissor de toxoplasmose).

Todos estes fatores deveriam ser  previamente pensados e discutidos com o seu médico assistente. Porém, se não o fez, deve apressar-se assim que descobrir que está grávida. Não se preocupe, ainda vai a tempo!

Conheça as 10 regras de segurança alimentar do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (DGS)

Em conclusão...

As infeções causadas por microorganismos podem parecer inofensivas, mas assumem consequências graves na gestação.

Uma boa conservação e higienização dos alimentos é essencial para prevenir este tipo de situações e estes cuidados deverão ser mantidos durante toda a gravidez.

Do que espera para começar a planear a sua gravidez com o Diário de uma Dietista? Não deixe ao acaso ou à sorte. Vale a pena planear.