Crescer (com saúde) em Portugal

A propósito do Dia Mundial da Criança 2021, o Diário de uma Dietista quis saber como está a saúde das próximas gerações

Cada vez mais, a adoção de um estilo de vida saudável assume especial importância desde os primeiros anos de vida. Sabe-se que o consumo elevado de alimentos nutricionalmente inadequados, isto é, com elevado teor em gorduras saturadas e trans, açúcar, sal e aditivos pode levar a um desequilíbrio energético que, por sua vez, poderá ter implicações a nível da composição corporal, resultando em excesso de peso e obesidade.

Childhood Obesity Surveillance Initiative 2015-2017

Dados do relatório do sistema de vigilância nutricional infantil Europeu apontam para que 1 em cada 10 crianças apresenta obesidade, sendo que dos 36 países da Região Europeia da Organização Mundial de Saúde 29% dos rapazes e 27% das raparigas com idade entre os 7 e os 9 anos têm excesso de peso.

E como está Portugal?

Nesta lista dos 36 países europeus, Portugal ocupa o 16º lugar como o país com maior prevalência de obesidade infantil, sendo que segundo resultados do Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física, o grupo etário das crianças portuguesas (<10 anos) apresenta uma prevalência de 7.7% de obesidade e 17.3% de pré-obesidade.
Consultar relatório

Estes números são especialmente preocupantes se pensarmos na associação entre o excesso de peso/obesidade e a probabilidade de desenvolvimento de comorbilidades como diabetes, hipertensão, dislipidemias (alteração de valores de colesterol/triglicéridos), etc., outrora maioritariamente presentes em adultos mas cada vez mais prevalentes em crianças.

As nossas crianças vivem num ambiente !

A aposta na educação e consciencialização alimentar são fundamentais para reverter estes números. O ambiente que se vive atualmente, designado por ambiente obesogénico, parece promover a adoção de comportamentos não tão salutares e que poderão levar a desequilíbrios nutricionais. Isto porque, apesar das escolhas alimentares serem vistas como um processo individual, estas são fortemente influenciadas pelo ambiente que rodeia os indivíduos, sendo isto especialmente verdade para as crianças, um grupo etário mais vulnerável.

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Deste modo, as famílias têm um papel determinante nos hábitos das crianças, promovendo, ou não, um estilo de vida saudável. 

Assim, por forma a serem um agente promotor de saúde, eis alguns princípios que as famílias poderão adotar como estratégias para combater o ambiente obesogénico:  

  • oferecer e disponibilizar, sempre, alimentos nutricionalmente adequados;
  • limitar o tempo de ecrãs;
  • incentivar o gosto e a prática de atividade física;
  • estabelecer rotinas saudáveis nomeadamente de sono;
  • incluir as crianças na preparação das refeições;
  • fazer refeições em família, dando o exemplo.

Qual o papel da Escola e dos Governos?

Outro ambiente de extrema importância para as crianças é o escolar, visto que é onde estas passam a maior parte do seu tempo. Através da oferta alimentar que existe em meio escolar e dos conteúdos curriculares apresentados, a escola pode e deve promover estilos de vida saudáveis.

A nível governamental e político, são várias as medidas adotadas em Portugal:

  • a taxação de bebidas açucaradas que visa desencorajar a toma deste tipo de bebidas (e cujos resultados apontam para que entre 2017 e 2020 tenha havido uma redução no seu consumo em 15%);
  • a regulação da publicidade alimentar dirigida a crianças de alimentos com elevado valor energético, gordura, açúcar e sal (Lei nº30/2019);
  • o programa do Regime Escolar que tem como principal objetivo promover o consumo de fruta, hortícolas e produtos lácteos através da distribuição gratuita deste tipo de alimentos e o desenvolvimento de documentos orientadores nomeadamente para ementas e refeitórios escolares e para bufetes escolares e máquinas de venda.

Decorrente, ou não, da adoção destas medidas, a verdade é que quando comparados os hábitos alimentares das crianças portuguesas com as restantes crianças europeias concluímos que estas são das que mais tomam o pequeno-almoço diariamente e comem fruta fresca, e das que menos ingerem doces e snacks salgados mais de 3 vezes por semana. 

Apesar das perspetivas serem animadoras, nomeadamente quando comparadas com o resto dos países europeus, não podemos descurar e devemos apostar cada vez mais na promoção de hábitos alimentares saudáveis!

Ao longo do mês de junho o Diário de uma Dietista vai partilhar consigo informação acerca que poderá determinar o futuro das mossas crianças!