Fibras & Obstipação

Dra. Catarina Cachão Bragadeste
Nutricionista, cédula 0402N

Pão, frutas, legumes, nozes e cereais integrais dispostos para ilustrar os macronutrientes essenciais na alimentação
Como vai caro leitor? Hoje falamos sobre um assunto de interesse comum, muito questionado em consulta e pelo público em geral:

Obstipação

É o termo médico para prisão de ventre (d.i. constipation). Esta é considerada um sintoma e não uma doença em si, tendo significados individuais. Habitualmente refere-se a dejecções pouco frequentes, mas também pode traduzir uma diminuição no volume ou peso das fezes, a necessidade de fazer força («puxar») para esvaziar incompletamente o recto, ou, ainda, a necessidade do uso de clisteres, supositórios, laxantes para manter a regularidade do trânsito intestinal.

 Numa base empírica, o diagnóstico de obstipação poderá ser colocado se o número de dejecções for inferior a três vezes por semana. A assunção incorreta de que se deverá ter pelo menos uma dejecção por dia, levou ao uso e abuso de laxantes com consequências preocupantes.

O que causa a Obstipação?

Poderão existir várias etiologias, possivelmente simultâneas, responsáveis pela obstipação.

As causas mais prováveis serão aspetos relacionados com o estilo de vida, como…:

  • Ingestão inadequada de líquidos e fibras,
  • Sedentarismo
  • e alterações ambientais.

A obstipação poderá ser agravada pela gravidez, viagens ou alterações na dieta.

Em algumas pessoas poderá ser o resultado de, repetidamente, ignorarem o estímulo para defecar. 

constipation
Relação entre os hábitos e o stress na obstipação

    Outras causas mais graves incluem alterações mecânicas apertos ou lesões expansivas no intestino grosso, pelo que se a obstipação persistir será aconselhável consultar o médico gastroenterologista.

Mais raramente, a obstipação poderá estar relacionada com patologias de base ou ser uma consequência do seu tratamento fármacológico. Poderá ser um sintoma de…;

  • Doença autoimune (esclerodermia, lúpus, artrite…)
  • Doenças dos sistemas nervosos ou endócrino (doenças da tiróide, a esclerose múltipla, doença de Parkinson, AVC e lesões da medula).

A obstipação poderá ainda ser causada por medicamentos: 

  • Analgésicos,
  • antidepressivos,
  • tranquilizantes,
  • anti-hipertensores,
  • diuréticos,
  • suplementos de ferro e de cálcio
  • e antiácidos contendo alumínio.

Para além disso, pessoas que verdadeiramente não são obstipadas podem tornar-se dependentes de laxantes, numa tentativa pouco recomendada de terem dejeções diárias, provocando lesões graves no intestino e alterações irreversíveis na microbiota.

 Assim, deverá consultar o médico sempre que: Assim, deverá consultar o médico sempre que:

Contudo, pode afirmar-se que a maior parte das obstipações são ligeiras ou transitórias e resolvidas através de uma mudança nos hábitos alimentares, principalmente através do seu conteúdo em fibra e água!

 
  As fibras alimentares de origem vegetal têm demonstrado diversos benefícios para a saúde, desde logo prevenindo tumores do aparelho digestivo e da mama, mas também, obstipação, hemorróidas e diverticulose, favorecendo o emagrecimento, sendo eficazes no controlo da diabetes e baixando o colesterol plasmático.
   Estes nutrientes fazem parte do grupo dos hidratos de carbonos ou glícidos, apesar de nos rótulos alimentares se encontrarem à parte, com a designação própria “fibras”. Elas são, na verdade, hidratos de carbono indigeríveis, tendo diferentes graus de solubilidade em água e de fermentação.
  • Fibras insolúveis e não fermentáveis: são a celulose, lenhina e algumas hemiceluloses. Estas constituem a componente estrutural das plantas, ou seja, “o esqueleto”, as partes fibrosas dos caules e talos das folhas. Por serem tão consistentes e rígidas passam o aparelho digestivo praticamente intactas, tendo como funções aumentar a massa fecal, favorecer a sua passagem através dos intestinos e controlar a acidez nestes órgãos.

De facto, estas fibras promovem os movimentos intestinais o que permite prevenir a prisão de ventre; para além disso, absorvem toxinas provenientes dos alimentos e da flora intestinal, favorecendo um ambiente estável no cólon e protegendo-o destes produtos potencialmente cancerígenos.

Fontes Alimentares de fibras insolúveis:

  • Vegetais de folha verde escura (ex. espinafres, nabiças, couve portuguesa, grelos de nabo),
  • Leguminosas verdes (ex. favas, ervilhas, feijões frescos),
  • Casca de fruta e de raízes (ex. nabo, rabanete, rábano, mandioca),
  • Cereais integrais completos (ex. aveia, centeio, trigo, milho),
  • Sementes (ex. sésamo, linhaça)
  • Oleaginosas (ex. nozes, amêndoa, caju, amendoim).

Destaca-se que existem fibras insolúveis de origem animal, por exemplo o quitosano, que se encontra nas cascas dos crustáceos como lagosta e camarão. Este tem sido estudado pela sua capacidade de baixar o colesterol sanguíneo!

   Por sua vez:

  • Fibras solúveis: podem ser gomas provenientes de plantas (ex. goma arábica, goma-guar, tragacanto), ou provenientes de algas (ex. carragenanos, alginatos, agar), e ainda pectinas de frutos e vegetais (ex. frutoligossacaridos, inulina, glucomanano). Estas são altamente fermentáveis pela flora intestinal tendo como principais propriedades: 
  1. Absorver água;
  2. Controlar o esvaziamento gástrico;
  3. Fornecer substrato para as bactérias do cólon produzirem substâncias benéficas, como os ácidos gordos de cadeia curta (butirato, propionato e acetato);
  4. Fixar os ácidos biliares e aumentar a sua excreção;
  5. Reduzir o colesterol;
  6. Melhorar a tolerância ao açúcar.

  Fontes Alimentares de fibras solúveis:

   Atualmente, sabe-se que os benefícios residem no consumo equilibrado de todos os tipos de fibras. A ingestão única ou em excesso de um só tipo pode levar a inflamação intestinal, diarreia ou mesmo obstipação. Se este último for o seu caso não deve aumentar somente o consumo de uma fruta ou verdura específica, em vez disso, deverá diversificar as fontes e combinações de fibras. Para além disso, não tome laxativos, mesmo que “naturais”, sem indicação e vigilância do seu nutricionista ou médico, pois se habituar o seu intestino, depois será difícil voltar atrás!

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 A recomendação diária de fibra alimentar da Organização Mundial de Saúde é 30 gramas por dia.

Contudo, a maioria dos estudos aponta para um consumo insuficiente nos países ocidentais, em que se incluem Portugal, entre 15 e 20 gramas diárias, decorrendo daí os comuns problemas intestinais.

Eis um exemplo de alimentos que deveria consumir em um dia para atingir a dose recomendada de fibra: 

  • 1 pão de cereais (70g); 
  • 5 colheres de sopa de flocos de aveia integral;
  • 5 colheres de feijão frade cozido; 
  • 4 colheres de arroz integral cozido; 
  • ½ prato de salada mista ao almoço; 
  • 1 tigela de legumes cozidos ao jantar; 
  • 1 punhado de nozes; 
  • 1 colher de sopa de linhaça moída ou de sementes de chia;
  • 2 frutas frescas ou secas (ameixas, tâmaras, figos).

Ingredientes – 100g ameixa seca sem caroço; 100g damasco; 100g maçã seca; 100g pêra seca; 100g uva passa sem caroço; 500 ml sumo de maçã fresco; 2 colheres de sopa vinho tinto seco; 1 chávena de chá iogurte natural; 50g de nozes em metades.

Modo de preparação – Colocar as frutas numa tigela, regar com o sumo de maçã e deixar de um dia para o outro. Colocá-las numa panela em lume médio por 15 minutos. Retirar do lume, esperar que arrefeçam e colocar numa saladeira. Regar com o vinho, juntar o iogurte e misturar; decorar com as nozes e servir.

Em conclusão…

Uma alimentação equilibrada, rica em frutas, legumes e cereais integrais proporciona todos os benefícios das fibras alimentares.

Porém, em casos específicos de doenças ou intolerâncias intestinais, como doença celíaca, colite, doença de Crohn, diverticulite, entre outras, a alimentação deve ser adaptada, não sendo aplicáveis pressupostos gerais.

Neste sentido, a consulta de um especialista em Nutrição Clínica é fundamental!

Para a população em geral, basta diversificar, afinal são apenas 30 gramas por dia!

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