Uso de antibióticos na infância
Qual o impacto na microbiota intestinal e na saúde ao longo da vida?
A microbiota intestinal começa a formar-se antes do nascimento e continua a desenvolver-se intensamente durante os primeiros anos de vida. Este período representa uma janela crítica para o desenvolvimento do sistema imunitário, do metabolismo e da comunicação entre o intestino e o cérebro. A exposição precoce a antibióticos, embora muitas vezes indispensável para tratar infeções bacterianas, pode alterar este processo de maturação e deixar uma “assinatura biológica” com potenciais repercussões décadas mais tarde.
O que é a Microbiota?
A microbiota intestinal é o conjunto de biliões de microrganismos — incluindo bactérias, vírus, fungos e outros micróbios — que vivem naturalmente no intestino humano. Longe de serem apenas "habitantes" do tubo digestivo, estes microrganismos desempenham um papel fundamental na digestão, na produção de vitaminas e metabolitos, na regulação do sistema imunitário, na proteção contra agentes patogénicos e na comunicação entre o intestino, o cérebro e o restante organismo.
Na perspetiva da Nutrição Funcional e da Medicina do Estilo de Vida, compreender a história de utilização de antibióticos durante a gravidez, parto e infância constitui uma peça importante da avaliação clínica, sobretudo em pessoas com doenças inflamatórias, autoimunes, metabólicas ou gastrointestinais.
Referências: Palleja et al., Nat Microbiol, 2022; Fan & Pedersen, Nat Rev Gastroenterol Hepatol, 2021; ISAPP Consensus, Nat Rev Gastroenterol Hepatol, 2024.
Antibióticos: fundamentais, mas devem ser utilizados de forma criteriosa
Os antibióticos revolucionaram a medicina moderna e continuam a ser indispensáveis no tratamento de inúmeras infeções bacterianas. Contudo, o seu uso inadequado — seja por prescrição desnecessária, tratamentos demasiado prolongados ou utilização para infeções virais — contribui para dois problemas relevantes:
- Aumento da resistência antimicrobiana
- Alterações profundas na microbiota intestinal.
Em muitos países, a exposição aos antibióticos durante a infância permanece elevada. Os primeiros 1000 dias de vida (desde a conceção até aproximadamente aos dois anos) representam um período particularmente sensível, durante o qual a microbiota está ainda em desenvolvimento. Qualquer perturbação nesta fase poderá influenciar a programação imunológica e metabólica futura.
Na prática clínica, não se pretende demonizar os antibióticos. Quando corretamente indicados, salvam vidas. O objetivo passa por garantir que são utilizados apenas quando realmente necessários e implementar estratégias que favoreçam posteriormente a recuperação da microbiota.
Referências: WHO, 2025; Zimmermann & Curtis, Cell Host Microbe, 2021; Francino, Nutrients, 2022.
A microbiota infantil: uma janela crítica para a saúde futura
Durante os primeiros anos de vida ocorre a colonização progressiva do intestino por milhares de espécies bacterianas. Esta comunidade microbiana participa na:
- maturação do sistema imunitário;
- desenvolvimento da barreira intestinal;
- síntese de vitaminas e metabolitos;
- metabolismo energético;
- produção de ácidos gordos de cadeia curta (SCFA);
- comunicação através do eixo intestino-cérebro.
Quando esta colonização é interrompida por antibióticos precoces, especialmente durante episódios repetidos, observa-se frequentemente uma redução da diversidade bacteriana, diminuição de espécies benéficas como Bifidobacterium e Lactobacillus e expansão de microrganismos oportunistas.
Referências: Robertson et al., Cell, 2023; Derrien et al., Gut, 2022; ISAPP Consensus, Nat Rev Gastroenterol Hepatol, 2024.
A diversidade microbiana é hoje considerada um dos principais marcadores de resiliência do ecossistema intestinal.
Que doenças podem estar associadas à exposição precoce aos antibióticos?
Nas últimas décadas tem aumentado o número de estudos que relacionam a utilização precoce de antibióticos com um maior risco de diversas doenças ao longo da vida.
Entre as associações mais consistentes encontram-se:
- obesidade infantil;
- resistência à insulina;
- eczema;
- asma;
- alergias alimentares;
- doença inflamatória intestinal (Doença de Crohn e Colite Ulcerosa);
- alterações metabólicas;
- maior predisposição para fenótipos inflamatórios.
Importa salientar que estas associações não significam causalidade absoluta. O desenvolvimento destas patologias depende igualmente da genética, alimentação, parto, amamentação, ambiente e estilo de vida. Contudo, a microbiota surge atualmente como um dos principais mediadores destes efeitos.
Referências: Loftus et al., Gut, 2023; Vallès et al., Microbiome, 2025; Morais et al., Lancet Gastroenterol Hepatol, 2024.
Gravidez, parto e microbiota: tudo começa antes do nascimento
Hoje sabe-se que a exposição materna a antibióticos durante a gravidez ou durante o trabalho de parto pode modificar a colonização intestinal do recém-nascido.
Meta-análises recentes demonstram que bebés expostos a antibióticos intraparto apresentam menor diversidade microbiana nas primeiras semanas de vida, particularmente redução de Bifidobacterium, um género bacteriano essencial para o desenvolvimento imunitário e digestivo.
Este fenómeno parece ser ainda mais relevante quando coexistem outros fatores como:
- cesariana;
- ausência de amamentação;
- alimentação rica em ultraprocessados;
- utilização repetida de antibióticos na infância.
Na perspetiva funcional, estes fatores representam cargas cumulativas (“total body burden”) que podem influenciar a saúde futura.
Referências: Wilson et al., Gut Microbes, 2022; Stinson et al., Microbiome, 2023; Robertson et al., Cell, 2023.
A microbiota influencia também o metabolismo?
Sim.
Uma das descobertas mais interessantes dos últimos anos é que alterações na microbiota podem modificar a forma como absorvemos e metabolizamos nutrientes.
Alguns estudos demonstram que tratamentos antibióticos podem reduzir temporariamente a absorção de determinados nutrientes e alterar vias metabólicas importantes, incluindo a produção de vitaminas, ácidos gordos de cadeia curta e metabolitos anti-inflamatórios.
Além disso, uma microbiota menos diversa associa-se frequentemente a:
- menor sensibilidade à insulina;
- maior inflamação sistémica de baixo grau;
- menor produção de butirato;
- alterações da integridade da barreira intestinal;
- maior permeabilidade intestinal.
Estes mecanismos ajudam a explicar porque motivo alterações ocorridas nos primeiros anos de vida poderão manifestar-se apenas décadas mais tarde.
Referências: Fan & Pedersen, Nat Rev Gastroenterol Hepatol, 2021; Vallès et al., Microbiome, 2025; Agus et al., Cell Metabolism, 2024.
O que pode fazer a Nutrição Funcional?
Na Nutrição Funcional, a história clínica não começa apenas na idade adulta. A informação sobre gravidez, parto, amamentação, infeções recorrentes, utilização de antibióticos e alimentação nos primeiros anos de vida pode fornecer pistas importantes para compreender desequilíbrios atuais.
Perante uma história de exposição frequente a antibióticos, a intervenção pode incluir:
- alimentação rica em fibra alimentar e diversidade vegetal;
- aumento da ingestão de alimentos fermentados quando apropriado;
- otimização da ingestão de polifenóis;
- promoção da produção de ácidos gordos de cadeia curta;
- avaliação individualizada da necessidade de prebióticos ou probióticos;
- correção de défices nutricionais;
- melhoria do sono, atividade física e gestão do stress, fatores que também influenciam profundamente a microbiota.
A abordagem deve ser sempre personalizada, baseada na evidência científica e adaptada ao contexto clínico de cada pessoa.
Referências: Lifestyle Medicine Global Alliance, 2024; ISAPP Consensus, Nat Rev Gastroenterol Hepatol, 2024; Wastyk et al., Cell, 2021.
A Medicina do Estilo de Vida: restaurar o ecossistema intestinal
A Medicina do Estilo de Vida reconhece que a saúde intestinal resulta da interação contínua entre alimentação, atividade física, sono, gestão do stress, relações sociais, exposição ambiental e utilização de medicamentos.
Embora não seja possível alterar a exposição passada aos antibióticos, é possível criar um ambiente favorável à recuperação da microbiota através de hábitos consistentes e sustentáveis.
Este conceito é particularmente relevante em pessoas com doenças inflamatórias, síndrome do intestino irritável, doenças autoimunes, obesidade, síndrome metabólica ou outras condições em que a disbiose intestinal possa desempenhar um papel importante.
Referências: Rippe, Am J Lifestyle Med, 2024; ISAPP Consensus, Nat Rev Gastroenterol Hepatol, 2024; Fan & Pedersen, Nat Rev Gastroenterol Hepatol, 2021.
Mais do que "corrigir" a microbiota, o objetivo passa por promover um ecossistema intestinal resiliente, funcional e capaz de interagir de forma equilibrada com o organismo.
Referências bibliográficas
- Fan Y, Pedersen O. Gut microbiota in human metabolic health and disease. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology. 2021;18:55-71.
- Robertson RC, Manges AR, Finlay BB, Prendergast AJ. The human microbiome and child growth. Cell. 2023;186:2212-2231.
- Vallès Y, et al. Early-life gut microbiome development and long-term health outcomes. Microbiome. 2025.
- Loftus EV Jr, et al. Early-life antibiotic exposure and risk of inflammatory bowel disease. Gut. 2023.
- ISAPP Consensus Panel. Fermented foods and gut microbiota: an International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics consensus statement. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology. 2024.
- Stinson LF, et al. Maternal antibiotic exposure and infant gut microbiome development. Microbiome. 2023.
- Wilson BC, et al. Effects of intrapartum antibiotics on infant microbiota. Gut Microbes. 2022.
- Agus A, Clément K, Sokol H. Gut microbiota and host metabolism. Cell Metabolism. 2024.
- Rippe JM. Lifestyle Medicine: the health benefits of healthy living. American Journal of Lifestyle Medicine. 2024.
- World Health Organization. Global antimicrobial resistance and use surveillance report. WHO, 2025.
- Francino MP. Antibiotics and the human gut microbiome: dysbiosis and health implications. Nutrients. 2022.
- Zimmermann P, Curtis N. The effect of antibiotics on the composition of the intestinal microbiota. Cell Host & Microbe. 2021.
- Wastyk HC, et al. Gut-microbiota-targeted diets modulate human immune status. Cell. 2021.
