Mastigar gasta calorias!

Dra. Catarina Cachão Bragadeste
Nutricionista, cédula 0402N

Mão a segurar um sanduíche de pão integral com alface, tomate e queijo, a ser mordido — escolha alimentar equilibrada

A mastigação é o 1º passo a digestão e tem diversas vantagens para a saúde, não só para o emagrecimento. Vamos saber quais!

Em termos digestivos, já os primeiros hominídeos sabiam que não é indiferente ingerir os alimentos inteiros, cozinhados ou triturados.

De facto, quer a ação mecânica do corte quer a exposição à luz e mesmo a mudança de pH induzem perdas nutricionais importantes, nomeadamente nas vitaminas e minerais oxidáveis, como é o caso da vitamina C, b-caroteno e tiamina (B1).

Contudo, hoje vamo-nos focar na perspetiva hormonal e metabólica da mastigação. 

A mastigação é um forte marcador de saciedade. Assim que se inicia o processo de mastigação e ensalivação são ativados uma série de “sinais” (hormonas) com diversas funções:

Infografia mostra como alimentos líquidos interferem na fome: falta de mastigação, esvaziamento gástrico lento

É por este motivo que se recomenda que os momentos de refeição sejam tranquilos, de preferência sentado, sem distrações, mastigando-se lentamente os alimentos.

Estima-se que este “sinal” de saciedade demore cerca de 15 a 20 minutos a chegar ao cérebro, pelo que se comer muito rápido, tenderá a ingerir uma maior quantidade de alimentos. Quando o sinal “chegar ao cérebro” já será tarde, sentindo-se enfartado e possivelmente indisposto.

Em contraponto, os alimentos líquidos não precisam de mastigação, diminuindo o efeito “incretina”, ou seja, supressor do apetite. Sem mastigação, não há saciedade. Para além disso, põe-se outra questão…. a velocidade de absorção.

Perspectiva metabólica

Quando o alimento está triturado, é como se estivesse pré-digerido! Ou seja, o gasto energético associado à sua digestão fica muito reduzido. Estima-se que este gasto calórico, designado por efeito térmico dos alimentos, represente cerca de 10% do dispêndio energético diário de um humano saudável. Por exemplo, se considerarmos uma necessidade energética diária de 2000kcal, este efeito gasta só por si cerca de 200kcal! O equivalente a 30minutos de caminhada acelerada!

Portanto, se passarmos a consumir alimentos líquidos ou excessivamente triturados estamos a diminuir bastante este gasto energético diário, contribuindo para o aumento do peso.

Diagrama mostra como hormonas como grelina, leptina e insulina regulam o apetite e o metabolismo energético

Mas há mais um problema: a velocidade de absorção!

Ao triturar os alimentos disponibilizamos os nutrientes para absorção. Principalmente os açúcares. Ou seja passamos os 2 primeiros passos da digestão mecânica, na boca e no estômago, que nunca é tão completa como a tritura mecânica! A chegada ao intestino é muito rápida e a absorção de açúcar começa já na boca.

Considere o seguinte exemplo: Quando alguém desmaia, o que procuramos imediatamente? açúcar diluído em água. É porque? Porque nesse estado (líquido) o açúcar chega ao sangue muito rapidamente (alto índice glicémico).

Portanto, ao comer alimentos integrais e mastigá-los lentamente, está a promover uma digestão e absorção lentas. É também por esta razão que se recomenda uma ingestão moderada de água às refeições (cerca de 200ml), bem como de sumos de fruta.

Gráfico mostra picos de glicemia após consumir fatias de laranja, sumo de laranja e coca-cola, com valores máximos

Repare nesta imagem como o “pico” glicémico causado pela laranja inteira é mais baixo do que o do sumo de laranja ou do refrigerante de cola.

Em termos práticos, ao absorver rapidamente o açúcar da fruta sentirá fome em pouco tempo. Uma rápida subida da glicemia promove a formação de nova gordura, através da subida de trigliceridos!

Mais uma vez, os alimentos integrais promovem maior gasto energético na mastigação, digestão, absorção e metabolização, além de terem taxas de absorção mais lentas, contribuindo para prolongar a saciedade e retardar a fome.

Sabe-se também que a textura dos alimentos aumenta a produção de hormonas do prazer, que controlam aquele efeito “não consegue parar de comer” típico das “bolachas e amendoins”.

Podemos “aproveitar” esse efeito com alimentos saudáveis! Assim, quando lhe apetecer “mastigar alguma coisa” faça palitos de cenoura crua (ou outro vegetal), pipocas sem adição de açúcar, galetes de arroz/milho, tremoços, sementes de abóbora sem sal, etc. 

Infografia com 7 estratégias para comer devagar, como usar talheres de sobremesa e mastigar 10-20 vezes por garfada

CONCLUSÃO:

Assim sendo, tudo indica que, não só é mais saudável, como mais saciante ingerir alimentos inteiros, assim como mastigá-los calma e lentamente.

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