18 Outubro – Dia Mundial da Menopausa: o que muda no corpo

Dra. Catarina Cachão Bragadeste
Nutricionista, cédula 0402N

Paciente satisfeita após acompanhamento nutricional personalizado, reforçando a importância da continuidade

Resumo de uma frase: a menopausa altera o contexto hormonal, metabólico e funcional da mulher, mas não provoca inevitavelmente aumento de peso ou perda de saúde — e alimentação, músculo, movimento, sono e avaliação clínica podem modificar de forma relevante esta trajetória.

Revisto cientificamente · Atualizado em Outubro de 2026

A propósito do Dia Mundial da Menopausa, 18 de outubro, vale a pena separar aquilo que a ciência hoje sustenta daquilo que se tornou uma narrativa demasiado simplificada.

A menopausa é uma transição biológica importante. Mas não é uma “avaria hormonal”, nem existe um momento em que o metabolismo simplesmente “desliga”. O envelhecimento, a redução progressiva dos estrogénios, a composição corporal, o sono, o nível de atividade física, a alimentação, o stress, a medicação e o contexto de vida atuam em conjunto. Esta abordagem integrada é também a que orienta o enquadramento clínico do Diário de uma Dietista. Diario_de_uma_Dietista_Framewor…

Em resumo

  • A evidência é forte de que a transição menopáusica favorece uma redistribuição da gordura para a região abdominal e visceral, mesmo quando o peso varia pouco. Isto pode contribuir para maior risco de insulinorresistência, alterações lipídicas e doença cardiometabólica. Não significa, contudo, que todas as mulheres irão aumentar de peso ou desenvolver doença. PubMed
  • Preservar músculo passa a ser uma prioridade clínica tão importante como controlar a adiposidade. Treino de força, atividade física regular e uma ingestão alimentar adequada — incluindo proteína suficiente — apoiam função metabólica, capacidade física e autonomia. Nature
  • Não existe uma “dieta da menopausa”. Os dados disponíveis favorecem padrões alimentares de elevada qualidade, ricos em alimentos vegetais pouco processados, leguminosas, frutos hortícolas, fruta, cereais integrais, frutos oleaginosos e gorduras insaturadas. Um grande estudo publicado em 2026 encontrou associação entre estes padrões e menor ganho de peso em torno da menopausa, mas, por se tratar de investigação observacional, não permite afirmar causalidade. jamanetwork.com

O que sabemos

A menopausa não provoca uma quebra súbita do metabolismo

Uma das ideias mais repetidas é que “depois dos 40 o metabolismo para”. A fisiologia é mais complexa.

Com a idade, é frequente ocorrer redução gradual da massa metabolicamente ativa, menor atividade física espontânea e alterações da composição corporal. Em paralelo, durante a transição menopáusica, a diminuição e a variabilidade do estradiol influenciam o tecido adiposo, músculo, fígado, cérebro e sistema vascular.

Os dados longitudinais sugerem que parte do aumento do peso já começa antes da menopausa, enquanto uma das mudanças mais consistentemente relacionadas com a transição hormonal é a alteração da composição corporal: mais gordura, sobretudo abdominal/visceral, e maior vulnerabilidade à perda de massa magra.

Por isso, duas mulheres com exatamente o mesmo peso podem ter perfis metabólicos bastante diferentes. Uma balança estável não significa necessariamente composição corporal estável.

A localização da gordura importa

O tecido adiposo visceral não é apenas uma reserva de energia. É metabolicamente ativo e está relacionado com alterações na sensibilidade à insulina, metabolismo lipídico, inflamação e risco cardiometabólico. Revisões recentes reforçam que a redução da sinalização estrogénica favorece uma distribuição mais central da gordura. PubMed

Isto ajuda a explicar porque, nesta fase, perímetro abdominal, composição corporal, pressão arterial, glicemia e perfil lipídico podem dizer mais sobre saúde metabólica do que os quilogramas isoladamente.

Não significa, porém, que a menopausa cause inevitavelmente diabetes ou doença cardiovascular. O risco resulta da interação entre predisposição, idade, adiposidade, atividade física, sono, alimentação, tabaco, álcool, medicação e outros fatores.

O músculo é parte do tratamento metabólico

O músculo esquelético participa ativamente na utilização de glicose, na força, mobilidade e autonomia. Preservá-lo torna-se particularmente relevante com o envelhecimento e durante a transição menopáusica.

Isto muda também a forma como devemos pensar a gestão do peso.

Uma perda rápida de quilogramas que envolva perda significativa de massa muscular pode produzir um número mais baixo na balança sem melhorar proporcionalmente a saúde. Pelo contrário, uma mulher pode perder gordura abdominal, preservar ou aumentar músculo e melhorar glicemia, força e capacidade física com uma alteração relativamente modesta do peso total.

É por isso que “comer menos” não é uma estratégia suficientemente completa para a menopausa.

O sono não é um detalhe

A transição menopáusica pode coincidir com afrontamentos, suores noturnos e alterações do sono. E o sono, por sua vez, interfere com metabolismo e comportamento alimentar.

Num ensaio aleatorizado publicado em Diabetes Care, reduzir o sono habitual em cerca de 1,5 horas por noite durante seis semanas diminuiu a sensibilidade à insulina em mulheres, mesmo sem alterações relevantes da adiposidade. Diabetes Journals

Não podemos concluir que dormir melhor resolve todas as alterações metabólicas da menopausa. Podemos concluir que ignorar sistematicamente o sono enquanto se tenta controlar alimentação e peso deixa de fora uma variável biologicamente relevante.

Os sintomas são reais — mas não são todos “das hormonas”

Afrontamentos e suores noturnos são os sintomas mais característicos. Uma revisão de 2026 estima que os sintomas vasomotores ocorram em cerca de 70% das mulheres peri e pós-menopáusicas, sendo moderados a graves em aproximadamente um terço das afetadas. Nature

Podem coexistir alterações do sono, sintomas geniturinários, alterações de humor, diminuição do desejo sexual, dores musculoesqueléticas ou alterações cognitivas subjetivas. BMJ Sexual & Reproductive Health

Mas fadiga, aumento de peso, obstipação, queda de cabelo, alterações do humor ou dificuldade de concentração também podem ter outras causas.

A menopausa pode fazer parte da explicação. Não deve tornar-se uma explicação universal.

A alimentação continua a ser importante — mas não existe uma fórmula hormonal

O melhor estudo especificamente dirigido aos padrões alimentares em torno da menopausa publicado em 2026 acompanhou 38 283 mulheres ao longo de uma janela de 12 anos. Padrões alimentares de maior qualidade estiveram associados a menor ganho ponderal e menor incidência de obesidade. jamanetwork.com

Os padrões mais favoráveis partilhavam características já conhecidas da alimentação cardiometabolicamente protetora:

mais hortícolas e fruta, leguminosas, frutos oleaginosos, cereais integrais e gorduras insaturadas; menor presença de carnes processadas, excesso de sódio e alimentos de reduzida qualidade nutricional.

Importa fazer a distinção científica: este estudo demonstra associação, não prova que um determinado padrão alimentar impeça causalmente o aumento de peso na menopausa.

Não há atualmente evidência robusta para uma dieta universal “anti-menopausa”, para eliminar grupos alimentares sem indicação ou para protocolos destinados a “equilibrar estrogénios” através dos alimentos.

O que ainda não sabemos

Ainda existem lacunas importantes na investigação em menopausa.

Não conseguimos prever com precisão qual mulher irá apresentar maior alteração de gordura visceral, perda muscular ou sintomas mais intensos, nem separar completamente os efeitos da idade dos efeitos da própria transição ovariana.

Também não sabemos se existe uma distribuição ótima de proteína, hidratos de carbono ou horários alimentares especificamente para todas as mulheres na menopausa. Muitas recomendações nutricionais utilizadas nesta fase são extrapoladas de evidência sobre envelhecimento saudável, composição corporal, exercício e risco cardiometabólico.

A microbiota intestinal parece modificar-se com a idade, dieta e estado hormonal, mas ainda não existe um perfil de “microbiota da menopausa” suficientemente validado para orientar dietas personalizadas de rotina.

E embora vários sintomas vasomotores estejam associados em estudos observacionais a risco cardiometabólico futuro, ainda não está completamente esclarecido até que ponto estes sintomas são causa, marcador de risco ou ambos. Nature

Finalmente, a investigação continua a ter uma limitação histórica importante: durante décadas, a menopausa foi muito menos estudada do que seria expectável para uma transição que ocorre em aproximadamente metade da população. A própria Nature Reviews Endocrinology assinalava em 2026 a necessidade de acelerar investigação e melhorar os cuidados prestados nesta fase da vida. Nature

Aplicação prática

A abordagem mais defensável não é tentar “combater as hormonas”. É identificar o que está realmente a mudar e atuar sobre os fatores modificáveis.

Na prática, isso significa privilegiar um padrão alimentar de elevada qualidade, predominantemente vegetal e suficientemente proteico; distribuir fontes de proteína ao longo do dia quando isso facilite atingir as necessidades; assegurar fibra e diversidade alimentar; praticar treino de força regularmente, complementado por atividade aeróbia e movimento diário; proteger o sono; limitar tabaco e consumo excessivo de álcool; e acompanhar fatores como perímetro abdominal, pressão arterial, lípidos, glicemia e composição corporal quando clinicamente relevantes.

Também significa não normalizar sofrimento importante.

A terapêutica hormonal da menopausa continua a ser o tratamento mais eficaz para sintomas vasomotores em mulheres adequadamente selecionadas e deve ser discutida individualmente com o médico, considerando idade, tempo desde a menopausa, sintomas, antecedentes e fatores de risco. Não deve ser prescrita com o objetivo isolado de emagrecer ou prevenir doença crónica. BMJ

A avaliação individual ganha particular importância perante hemorragia anormal, menopausa antes dos 40 anos, perda significativa de massa óssea ou muscular, sintomas muito incapacitantes, doença cardiovascular ou metabólica, alterações marcadas de peso ou composição corporal, perturbação persistente do sono ou suspeita de défices nutricionais.

O princípio central é simples: a menopausa muda o contexto. Não determina o destino.

O próprio framework do Diário de uma Dietista assume esta posição: a fase de vida deve alterar prioridades e avaliação, sem transformar a menopausa numa explicação determinista para todos os sintomas ou para a inevitabilidade da perda de saúde.

Referências científicas

  1. Vieira-Potter VJ, Mishra G, Townsend KL. Health of adipose tissue: oestrogen matters. Nature Reviews Endocrinology. 2026;22:76–91. DOI PubMed
  2. Hickey M, Huguenin A, Chung HF, et al. Risk factors, management and consequences of severe menopausal vasomotor symptoms. Nature Reviews Endocrinology. 2026;22:404–415. DOI Nature
  3. Xia T, Haslam DE, Eliassen AH, et al. Optimal Dietary Patterns for Lower Weight Gain and Risk of Obesity Surrounding Menopause. JAMA Network Open. 2026;9:e2613102. DOI jamanetwork.com
  4. MacGregor K, Ellefsen S, Pillon NJ, et al. Sex differences in skeletal muscle metabolism in exercise and type 2 diabetes mellitus. Nature Reviews Endocrinology. 2025;21:166–179. DOI Nature
  5. Manson JE, Crandall CJ, Rossouw JE, et al. The Women’s Health Initiative Randomized Trials and Clinical Practice: A Review. JAMA. 2024;331:1748–1760. DOI PubMed
  6. Zuraikat FM, Laferrère B, Cheng B, et al. Chronic Insufficient Sleep in Women Impairs Insulin Sensitivity Independent of Adiposity Changes: Results of a Randomized Trial. Diabetes Care. 2024;47:117–125. DOI Diabetes Journals
  7. Duralde ER, Sobel TH, Manson JE. Management of perimenopausal and menopausal symptoms. BMJ. 2023;382:e072612. DOI BMJ

 

Nota clínica

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica ou nutricional individual.

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