Tiroide & Nutrição

Como vai caro leitor?

Hoje o assunto centra-se na saúde de uma glândula muito importante:

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Já ouviu falar? certamente tem uma amiga ou uma familiar (sim, mulher) que “sofra da tiroide”. Vamos saber tudo:

A tiroide é uma pequena glândula que mede cerca de 5 cm de diâmetro situada no pescoço sob a pele e por baixo da maçã-de-adão. As duas metades (lobos) da glândula estão ligadas na parte central (istmo), de tal maneira que parecem a letra H ou um nó de lacinho. Normalmente a glândula tiroide não se consegue ver e mal se pode palpar. Só no caso de aumentar de volume pode o médico palpá-la facilmente como uma protuberância proeminente (bócio) que aparece por baixo ou aos lados da maçã-de-adão.

A glândula tiroide segrega as hormonas tiroideias, que controlam a velocidade das funções químicas do corpo (velocidade metabólica). As hormonas da tiroide têm dois efeitos sobre o metabolismo:

  1. Estimular quase todos os tecidos do corpo a produzir proteínas;
  2. Aumentar a quantidade de oxigénio que as células utilizam. 

    Por forma que quando as células trabalham mais intensamente, os órgãos do corpo trabalham mais depressa, ou seja, gastam mais calorias.
Para produzir hormonas tiroideias, a glândula tiroide precisa de iodo, um elemento que os alimentos e a água contêm. Esta glândula concentra o iodo e processa-o no seu interior. Quando as hormonas tiroideias se consomem, um pouco do iodo contido nas hormonas volta à glândula tiroide e é reciclado para produzir mais hormonas.

O organismo serve-se de um mecanismo complexo para ajustar a concentração de hormonas tiroideias presente em cada momento. Em primeiro lugar, o hipotálamo, localizado no cérebro sob a hipófise, segrega a hormona libertadora de tirotropina (TRH), a qual faz com que a hipófise produza a hormona estimulante da tiroide, ou tirotropina (TSH). Tal como o nome sugere, esta estimula a glândula tiroide para produzir hormonas tiroideias. Quando a quantidade de hormonas tiroideias circulantes no sangue atinge uma certa concentração, a hipófise reduz a produção de hormona estimulante da tiroide (TSH). Quando esta concentração diminui, aumenta a produção de hormona estimulante (mecanismo de controlo mediante retroação negativa ou feedback negativo).

Conversão das hormonas da tiroide


As hormonas da tiroide encontram-se em duas formas. A tiroxina (T4), que é a forma produzida na glândula tiroide, tem apenas um efeito ligeiro na aceleração da velocidade dos processos metabólicos do corpo. A tiroxina converte-se no fígado e noutros órgãos numa forma metabolicamente ativa, a triiodotironina (T3). Esta conversão produz aproximadamente 80% da forma ativa da hormona; os 20% restantes são produzidos e segregados pela tiroide. São vários os fatores que controlam a conversão de T4 em T3 no fígado e nos outros órgãos, incluindo as necessidades do organismo em cada momento. A maior parte das formas T4 e T3 liga-se a certas proteínas no sangue, sendo ativada apenas quando não estiver ligada a elas. Deste modo singular, o organismo mantém a quantidade correta de hormonas tiroideias, necessária para conservar uma velocidade metabólica estável.

Para que a tiroide funcione normalmente, é necessário que muitos fatores atuem muito estreitamente: o hipotálamo, a hipófise, as proteínas transportadoras de hormona tiroideia (do sangue) e a conversão, no fígado e nos outros tecidos, de T4 a T3. Ou seja, os valores analíticos são voláteis e dependem do equilíbrio de vários eixos. Não é por acaso que as análises para controlo destas hormonas são habitualmente semestrais.

Facis característica de mulher com hipotiroidismo

A causa mais frequente de HT é a tiroidite de Hashimoto, que consiste na reação do sistema imunitário contra a própria tiróide com a gradual destruição da mesma. A segunda causa mais frequente de HT é o tratamento do hipertiroidismo. O HT costuma verificar-se quer seja pelo tratamento com iodo radioativo, quer pela cirurgia.

A causa mais frequente de HT em muitos países em vias de desenvolvimento é a carência crónica de iodo na dieta, que produzirá um aumento do tamanho da glândula, reduzindo o seu rendimento (bócio hipotiroideo). Contudo, esta forma de HT desapareceu em muitos países, desde que os fabricantes de sal começaram a juntar iodo ao sal de mesa. Outras causas, mais raras, de hipotiroidismo incluem algumas afeções herdadas, em que uma anomalia enzimática nas células da tiroide impede que a glândula produza ou segregue quantidade suficiente de hormonas tiroideas. Outras perturbações pouco frequentes são aquelas em que o hipotálamo ou a hipófise não produzem a hormona na quantidade suficiente para estimular o funcionamento normal da tiroide.


Sintomas

A insuficiência tiroideia provoca uma decadência geral das funções do organismo. Em acentuado contraste com o hipertiroidismo, os sintomas do HT são subtis e graduais e podem ser confundidos com uma depressão:

  • As expressões faciais são toscas;
  • a voz é rouca e a dicção lenta;
  • as pálpebras estão caídas;
  • os olhos e a cara tornam-se inchados e salientes;
  • muitos doentes com HT aumentam de peso;
  • têm prisão de ventre;
  • são incapazes de tolerar o frio;
  • o cabelo torna-se ralo, áspero e seco;
  • a pele torna-se áspera, grossa, seca e escamosa.
  • Em muitos casos desenvolve-se a síndroma do canal cárpico, que provoca formigueiro ou dor nas mãos;
  • a pulsação torna-se mais lenta;
  • as palmas das mãos e as plantas dos pés aparecem um pouco alaranjadas (carotenemia);
  • a parte lateral das sobrancelhas solta-se lentamente.
  • Algumas pessoas, sobretudo os adultos, têm falta de memória e parecem confusas ou dementes, sinais que facilmente se podem confundir com a doença de Alzheimer ou outras formas de demência. 
Sinais e sintomas de HT

Tratamento

O hipotiroidismo trata-se com a substituição da hormona tiroideia deficiente, mediante um dos diversos preparados orais existentes. A forma preferida é a hormona tiroideia sintética, T4. O inicia-se com doses baixas de hormona tiroideia, porque os efeitos secundários podem ser graves se a dose for demasiado alta. A dose aumenta gradualmente até que se restabeleça a normalidade dos valores sanguíneos da hormona estimulante da tiroide (TSH). A medicação, em geral, será tomada durante toda a vida.

Tiroide e nutrição

  Como já foi dito, o défice de hormonas da tiróide causa um aumento do peso, por desaceleração do metabolismo. Este aumento de peso pode ser muito rápido, dependendo do desequilíbrio das hormonas tiróideias. É comum acontecer em fases críticas do ciclo de vida, como na menopausa nas mulheres. De facto, o problema é mais comum do que parece. Estima-se que 1 em cada 10 portugueses sofra de doenças da tiróide, afetando especialmente as mulheres acima de 45 anos. Entre as principais causas de problemas na tiróide está uma alimentação desequilibrada, relacionada principalmente com o consumo inadequado de minerais, como o iodo, o cálcio, o ferro e o selénio. Mas também o excesso de peso e a obesidade! Isto é, se tem peso a mais, tem mais risco de desenvolver hipotiroidismo, por isso previna-se e mantenha um peso saudável.

Antes de mais, uma pessoa com hipotiroidismo deve controlar a sua doença com medicação. Isto é, deve ser vigiada e acompanhada por um médico, por forma a determinar uma dose de medicação que mantenha estáveis as concentrações de hormonas tiróideias. Só após conseguir este equilíbrio deve enveredar por um tratamento nutricional de emagrecimento. Ainda assim, durante a perda de peso deve manter uma estreita vigilância sobre a doença, através de análises ao sangue semestrais. É muito provável que haja necessidade de adaptar a dosagem de medicação durante o tratamento nutricional.
   Saiba ainda que, uma vez medicada, a sua tiróide funcionará tão bem como o normal, devendo por isso seguir os pressupostos de uma alimentação saudável e estilo de vida ativo, como qualquer pessoa. Há o mito de que uma pessoa com “problemas de tiróide” não emagrece tanto ou engorda com mais facilidade. Isso não é verdade desde que a tiróide esteja devidamente medicada. Deste modo, tudo depende de si!

Estes são alimentos que contribuem para o correto funcionamento da tiroide, quer através da produção das suas hormonas, do seu transporte na corrente sanguínea e na absorção do iodo:

  • Fontes de iodo: Algas ( chlorella, spirulina), mariscos, sal iodado, peixes de mar. O sal iodado é a melhor forma de suplementação em iodo. Uma alimentação equilibrada fornece o iodo de que precisamos, especialmente se comermos peixe com regularidade.
  • Fontes de ferro: feijão e carne vermelha magra (uma porção por semana), levedura de cerveja. 
  • Fontes de selénio: cereais integrais, amêndoas, marisco e carne de aves.
  • Fontes de zinco: bivalves, mariscos, amêndoas, carne vermelha magra.
  • Fontes de vitamina A: cenoura, abóbora, fruta, peixe e gema de ovo.
  • Fontes de ómega-3: salmão, sardinha, óleo de linhaça.
  • Azeite.
  • Fibras, porque evitam o aumento brusco de açúcar no sangue.

Crucíferas, principalmente se cruas ou mal cozinhadas: brócolos, couve-de-bruxelas, repolho, couve-flor, espinafre, nabo, rabanete e milho.

Estes vegetais crucíferos contêm glucosinatos que são metabolizados em tiocianatos. Estes compostos inibem o transporte de iodo e a sua incorporação na tiroglobulina. Aumenta assim a produção de TSH e a proliferação das células tiróideias. Devido a esta característica são denominados vegetais bociogénicos. Quando cozinhados, os glucosinatos são neutralizados. 

  • Açúcar e alimentos refinados como farinha de trigo e açúcar: massas, arroz, pão branco, sobremesas doces e refrigerantes.
    • Estes alimentos aumentam muito a necessidade de insulina. A sua libertação pelo pâncreas obriga a uma boa coordenação com outras glândulas, nomeadamente as supra-renais e a tiróide.

  • Cafeína em excesso e chá verde, por diminuírem a absorção do medicamento Levotiroxina.
  • Sementes de linhaça (também dão origem a tiocianatos).
  • Soja. Os fitoestrogeneos da soja diminuem a absorção do fármaco levotiroxina no intestino e são capazes de suprimir parcialmente a actividade da tiróide, agravando o hipotiroidismo (para a proporção de 30g ou mais de soja por dia).
    • As isoflavonas, presentes na soja, têm uma estrutura similar às hormonas tiróideias T3 e T4. Estas substâncias inibem a fixação de iodo na tiróide, pelo que as concentrações de T3 e T4 diminuem, aumentando a produção de TSH.
    • A lecitina de soja é também um derivado da soja, mas não tem qualquer influência no funcionamento da tiróide; é um emulsionante que pode, inclusivamente, ajudar a controlar os níveis de colesterol no sangue.

Vários estudos indicam que as deficiências em micronutrientes como o iodo, ferro, selénio, vitamina A e zinco parecem alterar a função da tiróide no sentido de favorecer o hipotiroidismo.

  • Iodo (140mcg/dia) é essencial para que a tiróide produza as hormonas tiroxina (T4) e triiodotironina (T3). Quando a ingestão é adequada, o organismo obtém cerca de 40mg de iodo e 75% dessa quantidade são armazenados na tiróide. A ingestão insuficiente de iodo origina um aumento de volume da tiróide na tentativa desta aumentar a superfície de captação de iodo que circula no sangue.
    • NOTA: As pessoas que fazem tratamento com hormonas tiroideias devem ter particular atenção aos suplementos que contêm iodo uma vez que, embora o risco de ingestão excessiva de iodo seja muito reduzido, os níveis analíticos relacionados com a tiroide poderão aparecer alterados.
  • Zinco e o Selénio estão envolvidos no processo que transforma a hormona tiroideia inativa T4 em hormona tiroideia ativa T3.
    • O nível de selénio no tecido tiróideo tem grande impacto no desenvolvimento de patologias da tiroide. No hipotiroidismo, principalmente de origem autoimunes, a suplementação com selénio (0,2mg/dia) resulta na obtenção mais rápida da situação de eutiroidismo (função normal da tiroide).
  • A suplementação com Vitamina A (25,000 IU/dia) parece reduzir o risco de desenvolvimento de hipotiroidismo por contribuir para a absorção de iodo. 
  • A deficiência em Ferro afeta negativamente o metabolismo da tiróide e resulta em diminuição da eficácia das hormonas tiróideias, agravando o hipotiroidismo.

   ATENÇÃO: se tem hipotiroidismo ou alguma alteração da tiróide só deve fazer suplementação sob decisão e vigilância médica.

Considerações finais

O hipotiroidismo é uma afeção da tiroide, verificada especialmente em mulheres na peri-menopausa.

Alterações do humor e súbito aumento do peso são um forte sinal de que a sua tiroide poderá estar a funcionar mal. Comece por procurar um médico para fazer o diagnóstico e obter a correta dosagem de medicação que reequilibre a produção de hormonas tiroideias. O segundo passo será procurar uma consulta de nutrição para fazer uma reeducação alimentar e melhorar o seu estilo de vida.

A alimentação de uma pessoa com hipotiroidismo controlado segue as mesmas indicações para um adulto saudável. Assim, voltar ao seu peso só depende de si. Trate de si!