Liberte-se do “Tudo ou Nada”

Como vai caro leitor?
Voltamos para mais um artigo de reflexão sobre comportamento alimentar (aquele que dita a nossa relação com a comida).
Já reparou que o ano tem 12 meses certo? Devido às estações do ano e às nossas rotinas, passamos por ciclos/fases mais ou menos iguais todos os anos: De janeiro a junho dá-se “a espera ansiosa pelas férias”, de julho a dezembro, ou assim que passam as férias começa o “está quase aí o Natal”! E como é que isto se relaciona com a alimentação? IMENSO, embora de uma forma quase impercetível para muitos. Não é por acaso que as consultas de nutrição e os ginásios têm picos de afluência. Vamos perceber melhor estas relações.

O Ser Humano “é engraçado”: apesar de complexo, adoramos as fórmulas simples “1+1=2”, “comer isto engorda ou aquilo emagrece”, “em janeiro começo a dieta, em dezembro como o que me apetece”, “quero perder 1kg/semana, se assim não for desisto”… Ou seja, respostas lineares e previsíveis, como na matemática. Acontece que em biologia e em ciências sociais/humanas, há poucos fenómenos que se dêem dessa forma tão previsível e estática. Um resultado é influenciado por múltiplos fatores, que interagem entre si e tornam o tal resultado muito imprevisível. Agora pergunta-se, o que é que isto tem a ver com nutrição? porque é que estou a ler isto num blogue de nutrição? tem TUDO a ver.

A nossa relação com a comida (comportamento alimentar) determina quase totalmente o nosso estado nutricional (magreza, eutrofia, excesso de peso ou obesidade). Mais raramente é determinado por doença ou fatores genéticos (ex. estima-se que “o gene da obesidade” esteja presente apenas em 6% da população”. Portanto, quer isto dizer que é a MENTE e o AMBIENTE SOCIAL que determinam se está gordo ou magro! – Pode agora estar a pensar “Mas eu quero tanto ficar magro!”, pois é, mas continua a ter “atitudes/comportamentos de gordo”, por exemplo, fazendo dietas restritivas, com comprimidos e batidos verdes durante 1 mês, para depois no mês seguinte “não aguentar mais” e comer tudo o que não comeu em apenas 1 dia!

Pronto, mas este foi apenas um aparte. De facto, a nossa tendência de tornar as coisas simples, leva-nos a comportamentos “tudo ou nada” ao longo do ano. Estranhamente, o ano parece dividido em 2, a parte “tudo” e a parte “nada”.

Os meses “NADA”

Podemos classificar o mês de junho, ou os que antecedem as férias, como “os meses NADA”, em que a maioria das pessoas parece disposta a fazer os maiores sacrifícios em prol de um corpo esbelto e de um “objetivo verão”. Tudo começa às 0 horas e 1 minuto do dia 1 de janeiro! Nestes meses a afluência às consultas de nutrição, aos ginásios, às “massagens”, aos livros,  às lojas dietéticas, tudo dispara! E pronto, abre-se oficialmente a época das DIETAS!

Os meses “TUDO”

Em oposição, e depois de meses de sacrifício, desejo, descompensação… aparecem (finalmente) os meses TUDO!

“Agora sim  estou de férias de verão vou-me presentear pelo esforço que fiz até aqui!” OU

“Chegou o outono, as férias já passaram, a praia já foi, está quase aí o Natal, vão começar as festas, agora JÁ POSSO , afinal eu mereço!”

Mas PORQUÊ? porquê este pensamento tão básico e redutor que leva tanta gente aos ciclos “iô-iô”, a gastar “rios” de dinheiro em tratamentos rápidos e milagrosos, a submeterem os seus corpos a autênticos processos de fome e desnutrição??? Porque somos tão básicos nestas matérias caro leitor? A resposta parece-nos simples… neste campo somos “eternos adolescentes“. Ou seja, pensamos no IMEDIATO: agora que estamos saudáveis não conseguimos antever a doença, parecemos imunes a tudo, então “se resulta” vamos lá! De facto, fazemos DIETAS restritivas e tratamentos “duvidosos” porque não pensamos na SAÚDE, não fomos ensinamos a PREVENIR, assim como muitas pessoas não foram ensinadas a poupar para uma eventualidade. É tudo uma questão de educação (dos pais e das escolas). Enquanto não valorizarmos a SAÚDE como o MAIOR BEM, o mais insubstituível e de maior valor, continuaremos a passar pelos ciclos TUDO ou NADA, a ser escravos desta indústria, que todos os anos inventa novos métodos, novos suplementos milagrosos, novas “dietas”, novas receitas… Sim, se fossemos todos magros e saudáveis perderiam-se milhares de euros e postos de trabalho, estes lobis não têm nenhum interesse que fique magro e saudável. Antes preferem engordá-lo em metade do ano e prometerem-lhe emagrecimento rápido na outra metade! Sim, os nutricionistas fazem parte disto, aplicando as tais formulas dietéticas milagrosas (ex.dietas sem glúten), vendendo-lhe suplementos ou testes de intolerância alimentar (método sem validade científica). Até já há dietas para o tipo de sangue e para os SEUS genes, parece tudo tão específico e personalizado (mas não é).

Já pensou que por esta altura já está tudo preparado para lhe “lançarem o isco” mais apetitoso em janeiro? um novo livro com receitas e dietas milagrosas, um novo suplemento, um novo creme, uma capa de jornal/revista que lhe explica como recuperar das festas em “3 tempos”? Objetivo: o seu dinheiro (não tanto a sua saúde).

Pois bem, dezembro é um mês TUDO, “posso tudo, como tudo, porque em janeiro já estou mentalizado para iniciar a fase NADA”. “Vou aproveitar agora, porque já sei que depois não vou comer nada”.


5 passos para se livrar do “TUDO ou NADA”

1º PASSO – Vamos afastar estas concepções básicas e redutoras das nossas mentes.

2º PASSO – Reconheça que não há fases em que possa comer TUDO e outras em que não pode comer NADA.

3º PASSO – Valorize, priorize e reconheça a SAÚDE e a prevenção da doença, como o maior BEM e objetivo a atingir(desvalorizando o peso e a questão estética).

4º PASSO – Faça do ano um picotado de momento em que “come o que gosta”. Ou seja, não passe 1 mês a comer TUDO e outro sem comer, só causará um desequilíbrio emocional e consequentemente no seu comportamento alimentar. Possível consequência: períodos de compulsão (espiral de conflito interno entre o prazer da comida e a frustração causada pelo descontrolo). Coma uma sobremesa numa festa, uma fatia de bolo do colega, beba um copo com os amigos… integre estes momentos numa perspectiva social de convívio e prazer, evitando fazê-lo como recompensa quando está sozinho ou em resposta a emoções (ex. estou tão triste, mereço comer!).

5º PASSO – Tenha como objetivo tornar a sua alimentação mais saudável, melhorar os seus hábitos alimentares, para sempre, em vez de fazer dietas pontuais. Integre-a num estilo de vida equilibrado, que corresponde também a praticar atividade física e a descansar/relaxar. Não sabe como o fazer? procure profissionais para o ajudarem (nutricionista, treinador, psicólogo, massagista, professor de ioga…). E sobretudo não acredite em “milagres”, sejam dietas, tratamentos, suplementos… Tudo vai depender da sua força de vontade, do seu esforço/persistência e do TEMPO (não será fácil nem de um dia para o outro).


Em conclusão

Numa fase do ano (Natal) em que muitas pessoas desistem das consultas e dos ginásios, desistem de tratar de si, esquecem a saúde e deitam a perder tudo o que conseguiram, esperamos que este artigo seja um despertar de consciências.  Esperamos que faça deste dezembro um mês de pequenos momentos de prazer à mesa com familiares e amigos, intercalados de dias saudáveis, com os seus cuidados de saúde habituais, que tem durante todo o ano. Não espere pelo dia 1 de janeiro para cuidar de si, a saúde não “tem dias”. Estamos aqui para ajudar. 

 

Linha superior – Comportamento “Tudo ou nada” / Linha inferior – Comportamento saudável, equilibrado