A união da Psicologia com a Nutrição

Caro leitor:

Sabe que estamos sempre a tentar melhorar o nosso trabalho. A Nutrição “é um Mundo” e relaciona-se com muitas outras áreas científicas. Como tal, já antes escrevemos sobre comportamento alimentar, alimentação emocional, distúrbios do comportamento alimentar, entre outros. Mas AGORA, queremos passar para OUTRO NÍVEL. Queremos transmitir-lhe informação fidedigna, com base científica, de forma simples e apaixonada, por quem sabe bem do assunto 😉

Por essa razão procurámos um profissional da área da Psicologia que também “amasse a nutrição” e não poderíamos ter encontrado melhor!!

É com imenso prazer que anunciamos a nova correspondente do Diário de uma Dietista para a categoria Nutrição & Psicologia:

A Psicóloga Alexandra Barros!
Dra. Alexandra Barros, psicóloga clínica

Vamos conhecê-la:

Quem sou e como cheguei até aqui

Sou psicóloga clínica e sempre acreditei na interação mente-corpo-história-meio, raramente me contentando com explicações e abordagens unilaterais e unifatoriais, o que talvez explique o facto de me ter pós-graduado em neuropsicologia, apesar da formação de base e especialização em psicoterapia psicanalítica, duas correntes que já vão timidamente dando as mãos, mas que andam de costas voltadas na maior parte das vezes.

Apesar desta busca intencional pela articulação de saberes, foi um pouco sem querer que tropecei na relação entre a alimentação e a saúde mental, tendo-me dedicado nos últimos dois anos à pesquisa bibliográfica sobre esta temática, procurando informação rigorosa e comprovada cientificamente. Confesso que o ceticismo e a crítica negativa iniciais, vindos sobretudo dos colegas de profissão, me causaram algum pudor na abordagem do tema, apesar de continuar a aprofundá-lo num projeto paralelo e mais informal de sensibilização para o impacto da dieta na prevenção e otimização da saúde mental.

Curiosamente, há pouco tempo ouvi um podcast em que Felice Jacka, Fundadora da International Society for Nutritional Psychiatry Research (ISNPR) e impulsionadora de várias investigações com resultados publicados em revistas científicas de renome internacional, comentava o “rolar de olhos”, os comentários negativos e os risos de que foi alvo no início dos seus trabalhos. Não ambicionando alcançar o seu reconhecimento, ouvir este testemunho renovou a minha confiança e vontade de divulgar mais abertamente a informação que tenho encontrado.


Relação entre Psicologia & Nutrição

De facto, se até há bem pouco tempo se falava apenas do impacto do stress, das emoções e das perturbações mentais no comportamento alimentar, cada vez mais se tem falado da relação intestino-cérebro, nomeadamente da associação entre a doença inflamatória do intestino e as perturbações da saúde mental. Se sobre o intestino, chamado de segundo cérebro, ainda há muito para investigar e descobrir, mais terreno existe por desbravar neste âmbito do impacto da dieta na saúde mental. E se lá fora a Psicologia e a Psiquiatria Nutricional vão sendo já especialidades reconhecidas e cada vez mais respeitadas, por cá assume-se modestamente esta área de conhecimento, já com algumas investigações em curso.

As discussões e reflexões que tenho tido com nutricionistas, gastroenterologistas e enfermeiros de gastroenterologia tem sido também igualmente enriquecedora, com sinais de que cada vez mais estes assuntos e especialidades se cruzam por uma saúde que não é física, nem mental, porque é simplesmente saúde.

Por isso, foi com grande satisfação que aceitei o convite para colaborar com o Diário de uma Dietista, desafio que abraço com o maior sentido de responsabilidade.

Como costumo dizer, a dieta da saúde mental não traz nada de muito revelador; na verdade assenta no equilíbrio e na diversidade alimentar. Não é mais uma dieta para acrescentar às tendências da moda. Não se trata de ingerir um alimento milagroso ou uma receita mágica. Aliás, a investigação sugere que a “dieta da saúde mental” é nada mais nada menos do que a dieta mediterrânea, privilegiando vegetais, frutas e peixe, alimentos integrais não refinados e não processados, e diminuindo o consumo de carne, açúcar e gorduras.

Nesta parceria, o objetivo será sobretudo alertar para a forma como o estilo de vida ocidental, que inclui elevados níveis de stress e maus hábitos alimentares, pode causar défices e excessos e potenciar inflamações que aumentam o risco de desenvolver perturbações da saúde mental (emocional e intelectual) e/ou exacerbam a sintomatologia pré-existente, entrado também aqui a fascinante relação entre o intestino e o cérebro.

Saliento que encaro a influência dos hábitos alimentares mais numa lógica de prevenção e otimização, do que de tratamento. Embora, a nutrição apareça cada vez mais como terapêutica complementar em saúde mental, a este nível os dados são ainda insuficientes e requerem cautela. Neste sentido, tentarei também desmistificar algumas ideias amplamente divulgadas na internet a propósito de uma suposta ação antidepressiva ou ansiolítica de determinados alimentos. Sem certezas nem verdades absolutas, até porque a aprendizagem tem sido constante e porque vão surgindo sempre novas informações e novos estudos, o principal objetivo é sem dúvida sensibilizar e promover a reflexão.

Colocarei sempre o enfoque na psicoterapia como abordagem primordial das alterações da saúde mental, procurando também fazer a distinção entre objetivos de otimização/desenvolvimento pessoal e necessidades clínicas/terapêuticas.

Por último, mas não menos importante, virá a relação inversa, ou talvez circular, que nos mostra o impacto do stress e do funcionamento psicológico no comportamento alimentar. Entrarão aqui a anorexia, a bulimia e as compulsões alimentares, quadros que comportam marcado sofrimento psicológico e uma complexa abordagem terapêutica, muitas vezes reduzida erradamente a estratégias de relaxamento, meditação, autocontrolo e mindful eating. Haverá ainda espaço para falar de ortorexia, que apesar de ainda não configurar um diagnóstico clínico para lá caminha e é cada vez mais visto nas redes sociais, em páginas disfarçadas pelos rótulos de “saudável” e/ou “clean”, refletindo uma obsessão pela alimentação saudável, mas que de equilíbrio nada têm.


Esta longa introdução já dá conta do meu entusiasmo com esta parceria com o Diário de uma Dietista (e da dificuldade que terei em sintetizar cada temática!), que espero que seja útil e que contribua para a mudança de hábitos, no sentido de uma mente e de um corpo sãos, mas também para uma reflexão e um debate saudáveis.

Até breve!

Alexandra Barros, Psicóloga Clínica

www.alexandrabarros.pt