A dieta da saúde mental

Dra. Alexandra Barros, psicóloga clínica

Como vai caro leitor?

Voltamos para mais um artigo da nossa colaboradora para a área da psicologia e saúde mental: a Dra. Alexandra Barros.

Hoje traz-nos um tema muito pertinente, que muitos livros vende e tem vendido!

Será que existe mesmo uma “dieta” ou conjunto de padrões alimentares que beneficie o bem-estar da mente e cure, por exemplo, a depressão?

Vamos saber ⤵️⤵️⤵️


Afinal o que é isto da nutrição em saúde mental?

Quando falo do impacto da alimentação na saúde mental, há sempre uma expectativa de revelação de uma dieta mágica ou de um alimento milagroso que cure o mal das emoções. Há quem me peça uma dieta para a depressão, algo que jamais poderia fazer, não só por não ser nutricionista, mas porque essa dieta infelizmente não existe. Sentiria uma enorme realização profissional e ganharia certamente muita fama se fosse responsável por essa revelação, mas não existe essa receita mágica.

Se pensarmos um pouco sobre a quantidade de livros de dietas “anti-isto e aquilo”, rapidamente percebemos que se houvesse uma dieta mágica, um só livro bastava. O mesmo acontece com os livros de autoajuda; se ajudassem assim tanto, também não existiriam inúmeros. É verdade que cada um destes exemplares pode ter grande utilidade, na medida em que sugerem estratégias e orientações, e oferecem um certo sentimento de identidade e compreensão que até podem encaixar em muitas situações, mas jamais poderão ser generalizados à individualidade de cada pessoa. E é por isso que as pessoas compram livro atrás de livro, produto milagroso atrás de produto milagroso à espera da resposta rápida, imediata e irreversível ao seu mal-estar e, tantas vezes, ao seu desespero. E é por isso que tantas vezes ficam com a visão turva, incapaz de ver o que pode não ser assim tão mágico, tão imediato ou tão “e viveram felizes para sempre”, mas que na verdade pode estar mesmo debaixo do seu nariz e trazer enormes benefícios a longo prazo.

Apesar de me referir muitas vezes à “dieta da saúde mental” ou “à dieta do cérebro”, gosto do termo “não-dieta” precisamente para que nos demarquemos da cultura do emagrecimento e ou das fobias e obsessões alimentares. Neste sentido, quando falo em “dieta” refiro-me a um padrão alimentar ou a um estilo de vida caracterizado por um conjunto de hábitos equilibrados e consistentes. Mas se tivermos de dar um nome à dieta da saúde mental será, na verdade, um nome já conhecido: dieta mediterrânica, que assenta essencialmente em alimentos de época, privilegiando a ingestão de verduras, legumes, fruta e peixe, em detrimento das carnes vermelhas, que devem ser reduzidas, mas não eliminadas. Para além disso, o estilo de vida mediterrânico aposta na preparação e na degustação das refeições, contrariando a tendência atual do fast-food e das refeições pré-confecionadas.

Fonte: DGS.pt

Curiosamente, o meu interesse pelo impacto da alimentação na saúde mental, que surgiu por outros motivos, coincidiu com a altura em que refletia sobre novas configurações de sintomas psicológicos, associadas ao estilo de vida atual desta espécie de sociedade hiperativa em que vivemos. Quer queiramos, quer não, quando passamos os dias a correr de um lado para o outro acabamos por descurar o descanso e a alimentação. Por isso, achei curioso um dos primeiros dados que encontrei quando iniciei a minha pesquisa, que apontava para um risco 30% maior de depressão associado à dieta ocidental quando comparada com as dietas mediterrânica e japonesa. Estas últimas são ricas em vegetais, frutas, alimentos integrais, não processados e não refinados, peixe e marisco, com reduzido consumo de carne e laticínios.

De facto, a investigação tem sugerido que a prevalência das doenças mentais tem aumentado nos países desenvolvidos, obviamente com múltiplos fatores envolvidos, mas com forte associação à deterioração da dieta ocidental, havendo uma correlação entre determinadas deficiências nutricionais e algumas perturbações mentais. As principais carências envolvidas parecem ser ao nível do ómega-3, das vitaminas do complexo B, dos minerais e de aminoácidos. Já um maior consumo de peixe parece estar relacionado com uma menor incidência de perturbações mentais, com uma relação direta com a ingestão de ómega-3.

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No entanto, a tendência atual é a de procurar suplementos para suprir estas necessidades, quando em primeiro lugar se deveria apostar numa alimentação diversificada e colorida que forneça os nutrientes que compõem o combustível que necessitamos para a uma saúde física e mental.

É importante salientar que quando falamos nestas associações não estamos a falar em relações causais, ou seja, não será a dieta a causar a depressão ou outra condição psicológica. Mas o que colocamos no prato poderá diminuir a nossa vulnerabilidade e aumentar a nossa resiliência.

Apesar de haver algumas variantes da dieta mediterrânica mais direcionada para a prevenção das doenças mentais e das doenças neurodegenerativas, a primeira continua a ser a que reúne dados mais sólidos. De uma forma simplificada, pode dizer-se que a dieta da saúde mental é a mesma que protege a saúde cardiovascular e que é anti-inflamatória: apostar em alimentos frescos, evitando fritos e produtos industrializados e, como já referido, privilegiando vegetais, frutas e peixe.

Numa próxima publicação, irei abordar a relação entre determinados défices nutricionais específicos e algumas perturbações da saúde mental. Até lá, lembre-se que um bom funcionamento mental requer um corpo bem nutrido.

 

Até breve!

Alexandra Barros, Psicóloga Clínica

www.alexandrabarros.pt

 

Referências Bibliográficas:

  • Korn, L. (2016). Nutrition Essentials for Mental Health: A Complete Guide to the Food-Mood Connection (1st Edi). W. W. Norton & Company
  • Sanchez-Villegas A, Martinez-Gonzalez MA, Estruch R et al. (2013) Mediterranean dietary pattern and depression: the PREDIMED randomized trial. BMC Med 11, 208.